quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

FELICIDADE E FIDELIDADE NO CASAMENTO — O QUE É MAIS IMPORTANTE?

Felicidade e fidelidade no casamento — o que é mais importante? – Edição 294 | Revista Ultimato

Felicidade e fidelidade no casamento — o que é mais importante?

Apesar da origem divina, da beleza e da bênção do casamento, ele não é um relacionamento fácil. Aliás, é muito difícil. As muitas separações e os muitos divórcios, bem como a tendência cada vez maior de uniões temporárias e informais, sem compromissos mútuos, o comprovam.

O casamento parece muito simples e muito fácil na fase de descoberta da pessoa amada. Parece muito fácil nas fases seguintes de aproximação progressiva (namoro, noivado e casamento), na lua-de-mel e nos primeiros anos de vida conjugal.

O casamento é difícil por várias razões, especialmente por causa das diferenças entre os cônjuges. São duas pessoas de sexos diferentes — fisiologia diferente, sentimentos diferentes, momentos críticos diferentes, emoções diferentes. São duas pessoas de temperamentos diferentes — não há duas pessoas iguais nem entre aquelas que têm o mesmo pai e a mesma mãe, e a mesma educação. São duas pessoas de históricos diferentes — até mesmo quando são da mesma raça, da mesma religião, da mesma pátria, da mesma cultura e do mesmo nível socioeconômico.

Um cônjuge não pode submeter o outro. Nem o homem nem a mulher. Ambos precisam aprender a arte de conviver — “viver em comum com outrem em intimidade, em familiaridade” (Aurélio), viver com ou ao lado do cônjuge. Ninguém precisa ter medo de ler os deveres conjugais apontados por Paulo em Efésios 5.22, 33. Nem as mulheres, nem os homens, nem os pastores, a não ser que a leitura seja machista (problema antigo) ou feminista (problema moderno). Paulo é muito equilibrado e combina a submissão feminina com o amor masculino, ou este com aquela. Gasta duas vezes mais palavras com o marido que com a esposa. E a referência para ambos é o casamento de Jesus Cristo com a Igreja.

Os ministros religiosos que celebram casamento precisam mudar o discurso de anos a fio. Temos enfatizado mais a fidelidade do que a realização pessoal dos cônjuges. É nosso dever dar a mesma importância à fidelidade e à felicidade, pois uma leva à outra e vice-versa. A felicidade conjugal torna quase impossível o adultério, e a fidelidade conjugal torna quase impossível a abertura de feridas de cura demorada e sofrida.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

CASAMENTO: ENCANTAMENTO COM OBRIGAÇÕES E OBRIGAÇÕES COM ENCANTAMENTO

Casamento: encantamento com obrigações e obrigações com encantamento – Edição 294 | Revista Ultimato


Casamento: encantamento com obrigações e obrigações com encantamento

Podemos ter três visões a respeito do casamento:a visão demasiadamente otimista, a visão demasiadamente pessimista e a visão prudentemente realista

A visão demasiadamente otimista

É a visão romântica demais, de alguns anos atrás, presente nos enredos de certos romances de amor e de certas novelas. As mulheres falam em “príncipe encantado” e os homens, em “a mulher de meus sonhos” ou “a mulher de minha vida”. As histórias de amor dessa linha focalizam quase sempre apenas a fase de conquista e terminam com a duvidosa e eufórica declaração: “E foram felizes para sempre”. A esse respeito é oportuno transcrever um parágrafo do artigo “Os casamentos de Charles e ‘jogos subterrâneos’”, do conhecido psicanalista Contardo Calligaris, publicado na Folha de São Paulo de 14 de abril: 

Romances e filmes de amor, em sua esmagadora maioria, narram as peripécias dos amantes até que consigam se juntar. Depois disso, parece óbvio que eles vivam “felizes para sempre”. Infeliz e freqüentemente, nos consultórios de psicoterapeutas e psicanalistas, a história dos casais depois do cartão-postal inicial é contada em versões bem menos sorridentes.

Está dentro desse contexto a história do índio Peri e da não-índia Ceci, no romance O Guarani, de José de Alencar, escrito em 1857. E também a história dos adolescentes Romeu e Julieta, que se apaixonaram num baile de máscaras em Verona e no dia seguinte se casaram em segredo, já que suas famílias eram inimigas entre si. A peça de William Shakespeare escrita em 1595 termina em tragédia: primeiro Romeu comete suicídio na suposição de que a amada esteja morta; depois Julieta, em face da morte do amado, também se mata.

A desvantagem da visão exageradamente otimista é que os nubentes são muito ingênuos e se casam despreparados. Não admitem dificuldade posterior alguma e não tomam medidas preventivas.

O abandono do romantismo ou do otimismo exagerado talvez tenha ido longe demais. Colocamos na mesma bacia as vantagens e as desvantagens e jogamos tudo fora.


A visão demasiadamente pessimista

Hoje prevalece a visão demasiadamente pessimista do casamento. Em vez de frases românticas, colecionamos ditados e conceitos chocantes: “O amor é eterno enquanto dura”; “Quando a pobreza bate à porta, o amor voa pela janela”; “O amor faz passar o tempo e o tempo faz passar o amor”.

E ouvimos conselhos absurdos: “Se não fosse bobamente moralista, teria tido mais amantes e menos maridos” (Elizabeth Taylor, atriz); “Hoje o que eu consideraria ideal seria poder ter duas, três, quatro mulheres, amigas, namoradas eventuais, e elas terem dois, três, quatro homens” (José Angelo Gaiarsa, psiquiatra); “Se a gente pensar bem, o casamento nunca foi necessário” (Flávio Gikovate, psicoterapeuta).

Por essa razão, casa-se cada vez menos e cada vez mais tarde. Ao mesmo tempo separa-se cada vez mais (de 81.130 divórcios e 76.200 separações judiciais em 1991 passamos para 129.520 divórcios e 99.690 separações em 2002). Metade dos casamentos na Inglaterra acaba antes de completar 18 meses. Entre os americanos, o índice de divórcio é de 50%. Pela mesma razão, o número de uniões consensuais tem aumentado — das uniões celebradas no ano 2000 no Brasil, 70,5% foram oficializadas, enquanto que 29,5% foram informais.


A visão prudentemente realista

Do ponto de vista cristão, o casamento é uma instituição natural, inaugurada por Deus logo após a criação do homem e da mulher. Une duas pessoas de sexos diferentes para viverem em companhia agradável uma da outra, até que a morte ou a infidelidade contumaz e irreversível de um ou de ambos os cônjuges os separe.

Mesmo fora do meio cristão, considera-se que o casamento é bom para a saúde física e mental e para a vida sexual. Pessoas casadas têm câncer e problemas cardíacos mais raramente e vivem mais, de acordo com a revista alemã Neus Leben, que se baseou em dados científicos. Entre os casados, o número de suicídios é menor. Ser casado, conclui a pesquisa, é um dos fatores que mais podem influenciar a felicidade pessoal. E, ao contrário do que se afirma com freqüência — que nada é mais prejudicial à realização sexual do que ser fiel a vida inteira, estudos demonstram que pessoas casadas fazem mais sexo do que os solteiros e que a qualidade de vida sexual dos casados é significativamente melhor.

A visão prudentemente realista do casamento não é simplória como a visão demasiadamente otimista e menos negativa do que a visão demasiadamente pessimista. A Bíblia a exalta sobre estas outras.

Primeiro, a Palavra de Deus valoriza tanto o casamento que em seu cânon há um livro que descreve o amor apaixonado de um homem e uma donzela, que trocam entre si juras de amor e elogios de beleza física e sensual. Trata-se do Cântico dos Cânticos, o mais belo dos 1.005 poemas da lavra de Salomão.

Segundo, logo no primeiro livro da Bíblia, conta-se a história das três famílias da era patriarcal (1900-1600 a.C.), sem se esconder os problemas domésticos de Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, e Jacó e Raquel. O trecho todo ocupa três quartos do livro de Gênesis (do capítulo 12 ao 50).

Portanto, que haja um equilíbrio entre o sonho apaixonado do Cântico dos Cânticos e a realidade do dia-a-dia do livro de Gênesis, um balanço entre encantamento mútuo e obrigações mútuas.

É isso que nos leva e nos prende à visão prudentemente realista do casamento. Tem razão aquele que acrescentou à passagem do Cântico dos Cânticos “o amor é tão forte como a morte” (Ct 8.6) estas palavras: “mas tem a fragilidade do vidro”!


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

IGREJAS URBANAS: UNIDADES PACIFICADORAS E ÉTICAS

Igrejas urbanas: unidades pacificadoras e éticas – Edição 339 | Revista Ultimato


Igrejas urbanas: unidades pacificadoras e éticas

Jorge Henrique Barro
A história de Noé é fundamental para se entender o processo de desenvolvimento dos povos e das cidades. Noé teve três filhos: Sem, Cam e Jafé, e “a partir deles toda a terra foi povoada” (Gn 10.19). É a partir desta família que Deus “reinicia” o processo de desenvolvimento de um “novo mundo”. Se é reinício, houve um fim do início. E o que causou esse fim?
 
Ora, a terra estava corrompida aos olhos de Deus e cheia de violência. Ao ver como toda a humanidade havia corrompido sua conduta, Deus disse a Noé: “Darei fim a todos os seres humanos, porque a terra encheu-se de violência por causa deles. Eu os destruirei com a terra” (Gn 6.11-13).
 
A “violência e a corrupção” da conduta humana deram fim aos primeiros povoamentos e cidades. Os sonhos dos primeiros construtores, como Caim e outros, literalmente foram para debaixo d’água, com o dilúvio, pois “as águas prevaleceram sobre a terra cento e cinquenta dias” (Gn 7.24). Foram necessários quase cinco meses para destruir tudo quanto o ser humano havia construído até então, bem como o próprio jardim do Éden.

O recomeço nasce com a bênção de Deus: “Deus abençoou Noé e seus filhos dizendo-lhes: ‘Sejam férteis, multipliquem-se e encham a terra’” (Gn 9.1; ver também 9.7), e “a partir deles toda a terra foi povoada” (Gn 10.19). Este povoamento teria de acontecer com o compromisso, por parte de Noé e seus filhos, de não permitir que “violência e corrupção” da conduta humana se estabelecessem na terra novamente. Para certificar-se disso, Deus estabelece uma “aliança” com a família de Noé e a estende “para todas as gerações futuras” (Gn 9.12). Mas isto não é unilateral. Deus deixa claro que pedirá contas da vida do próximo (Gn 9.5) e afirma: “Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque “à imagem de Deus foi criado o homem”” (Gn 9.6). Esta é a contrapartida da aliança. Deus exige a participação humana como compromisso responsável. A cláusula contratual que Deus impõe na aliança é para o benefício do próprio ser humano. Ou seja, os novos povoamentos e as construções das futuras cidades não poderiam se dar pelo uso e exercício da “violência”, como também seria necessário desenvolver uma nova percepção ético-moral para que a “corrupção” não encontrasse solo fértil para crescer. É com base nessas condições humanitárias que Deus disse: “Sejam férteis, multipliquem-se e encham a terra” (Gn 9.7). Encham a terra de gente “pacifica e íntegra”!
 
Dois elementos são fundamentais para Deus nas relações humanas: “paz e integridade”. Uma sociedade violenta e corrupta revela a ausência da “imagem de Deus” (Gn 9.6). A busca da paz e da integridade não se trata apenas de um esforço determinante para as relações humanas, mas, acima de tudo, de preservar o essencial – “a imagem de Deus no meio delas”.
 
Encontramos aqui uma função teológica impressionante para o exercício da missão do povo Deus nas cidades: “a imagem de Deus no próximo”. A questão da “violência” e da “corrupção” não pode ser vista e abordada apenas como um mal social e estrutural da sociedade. A questão essencial é “relacional-espiritual”, mas esse aspecto é negligenciado pelos governantes. É “relacional” porque a violência e a corrupção, sejam quais forem suas expressões e modalidades, sempre atingem o ser humano. É “espiritual” porque a violência e a corrupção acontecem pelo menosprezo ou desconhecimento da imagem de Deus no próximo. Tudo isso mostra o quanto Deus está interessado em participar da vida das pessoas da cidade.
 
Precisamos refletir sobre a relação entre violência e ausência de ética (que o texto bíblico chama de “corrupção da conduta humana”). Nessa relação, “violentar ou praticar a violência é cometer um ato contra a ética, pois ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. A ética tem a função de orientar o equilíbrio nas relações sociais, institucionais e políticas, a fim de que não haja prejuízo para nenhuma das partes”.1
 
As igrejas cristãs exercem um papel fundamental como “construtoras” da conduta humana na sociedade. Elas podem e devem cuidar para que, em sua missão, a cidade preserve a “imago Dei” no meio da sociedade. Farão isso à medida que compreenderem sua função como “unidades promotoras de paz e como unidades construtoras da ética”, que refletem os valores da Palavra de Deus e seu reino.
Nota
1. MINAYO, Maria Cecília de Souza. “Violência e saúde”. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2006.
Jorge Henrique Barro é professor da Faculdade Teológica Sul-Americana e presidente da Fraternidade Teológica Latino-Americana (continental).


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

POR AMOR

Por amor – Edição 339 | Revista Ultimato


Por amor

Rubem Amorese
Aquela conversa deve ter sido frustrante para os discípulos. Mas para nós, passado tanto tempo, ainda é luz.
 
Jesus lhes diz que vai preparar-lhes lugar; e que sabem o caminho (Jo 14.4).
Nesse momento, o prático Tomé se exaspera e fala como o Gato, de Alice: “Como saber o caminho, se não sabemos aonde vais?”.
 
Ai! a resposta torna tudo ainda mais difícil: “Eu sou o caminho; ninguém vem ao Pai senão por mim”.
 
Posso senti-los se entreolhando. Filipe tenta aliviar: “Mostra-nos o Pai, e isso nos basta”. Porém não dá certo; o Mestre retorna ao argumento principal, agora mais enfático: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: mostra-nos o Pai?” (Jo 14.9).
 
Como poderiam aqueles homens rudes imaginar o alcance dessas palavras? Como suporiam que o Mestre, que se apresentava como caminho, fazia uma síntese de sua missão, envolvendo motivações, modos de agir, sentir e pensar, além de revelações sobre Deus e os homens?
 
Como poderiam supor que, ao fazer-se caminho, ele esperava que seus discípulos tivessem “o mesmo sentimento” que ele? Que entre eles tudo brotasse de um “amou de tal maneira” e que absolutamente tudo desaguasse em um “que deu”?
 
Como poderiam imaginar aqueles homens rudes que, para além das palavras das Escrituras, Deus se faria um menino de manjedoura e, ao final de tudo, venceria o mundo e o maligno como uma “ovelha de matadouro”, para revelar-se -- a quem tivesse olhos para ver -- um leão?
 
Como poderiam imaginar aqueles homens rudes que seu Mestre esperava que eles, ao compor seu corpo, tudo fizessem por amor? E que, se esse amor que nasce misteriosamente -- mas que se derrama concretamente em gestos de renúncia e serviço -- não fosse a motivação de tudo, nada seria? Mesmo que dessem seus próprios corpos para ser queimados, nada seria? O que significa que não estariam nele, no caminho?
 
Como poderiam imaginar que sem ele nada poderiam fazer? E que, após sua partida, ainda edificariam uma igreja, ainda articulariam membros para produzir o crescimento de um corpo, na base do alegre e anônimo serviço sacrificial? Sim, que o crescimento se daria, quase imperceptivelmente, por meio de atitudes e sentimentos tão sutis quanto ternuras, afetos e misericórdias? Com cânticos e ações de graça?
 
Era informação demais para o momento. Precisariam de tempo e de discernimento -- do Espírito que viria. Precisariam aprender a morrer, “o dia todo” para, então, chegar ao seu destino, ao fim da caminhada, ao início de tudo -- o Pai. Ou melhor, os braços do Pai.
E imaginar que tais cogitações nos chegam, passados dois mil anos, e nos encontram aturdidos e ansiosos com relação ao futuro da igreja do Senhor!
 
É tempo de voltar nossa atenção para o menino, em sua fragilidade.
 
Um menino se nos deu! Onde a soberba? E os títulos? E os cargos? E a sabedoria secular? E o domínio sobre mentes e almas? Onde as técnicas? E as organizações? E os métodos? E as planilhas? E os sistemas? E a mídia? E as cifras? E o sucesso?
Não, a mensagem que celebramos é de outra natureza; ao mesmo tempo singela e poderosa -- naquela manjedoura está o nosso caminho: amou de tal maneira que se deu (Jo 3.16). O que passa disso... bem, é outro caminho.
• Rubem Amorese é presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília, e foi professor na Faculdade Teológica Batista de Brasília por vinte anos. Antes de se aposentar, foi consultor legislativo no Senado Federal e diretor de informática no Centro de Informática e Processamento de Dados do Senado Federal. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia e Fábrica de Missionários -- nem leigos, nem santos. ruben@amorese.com.br


domingo, 3 de fevereiro de 2013

A missão do reino de Deus (parte 3) O “Magnificat”

A missão do reino de Deus (parte 3) O “Magnificat” – Edição 339 | Revista Ultimato


A missão do reino de Deus (parte 3) O “Magnificat”

René Padilla
De todos os hinos que aparecem no Novo Testamento nenhum reflete com tanta precisão como o “Magnificat” (o cântico da virgem Maria em Lucas 1.46-55) as aspirações messiânicas do povo de Israel no tempo em que Jesus Cristo nasceu. São aspirações de libertação da opressão imperial a que esse povo esteve submetido ao longo de sua história e que nesse momento sofre sob o jugo de Roma representado na Palestina pelo rei Herodes, o Grande. Maria, uma humilde jovem virgem de Nazaré, provavelmente ainda adolescente, ouve o anúncio do anjo Gabriel (Lc 1.26-38). É um anúncio transcendental, segundo o qual ela ficará grávida e dará à luz um filho que será chamado de Jesus, em quem se cumprirão as profecias do Antigo Testamento a respeito do Messias: “O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim” (v. 32a-33). Submissa, Maria acata a vontade de Deus (“Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra”, v. 38) e poucos dias depois empreende uma viagem à Judeia para visitar a sua parente Isabel, esposa do sacerdote Zacarias, em sua casa. É aí onde a bem-aventurada futura mãe expressa em um cântico que transborda em ecos do Antigo Testamento o que, a partir de sua perspectiva, significa o cumprimento do anúncio angelical não só para ela, mas também para seu povo e para toda a raça humana.
O “Magnificat” faz parte dos dois capítulos cujo conteúdo só aparece no terceiro Evangelho e que têm a ver com a infância de Jesus Cristo. Neste cântico aparecem vários dos temas que ocupam um lugar privilegiado na narração da vida de Jesus no “Evangelho dos pobres”, como é denominado o Evangelho de Lucas, “o médico amado”. O poema se divide em duas estrofes. A primeira estrofe (v. 46-50), da qual nos ocupamos neste artigo, tem foco em Maria e dá ênfase à ação de Deus como o Deus que cumpre seu propósito redentor em benefício de uma humilde serva. A segunda estrofe (v. 51-54), a que daremos atenção no próximo artigo, amplia o foco do pessoal ao corporativo e destaca a ação de Deus como o Deus que estabelece a justiça. Em todo o poema o sujeito da ação é Deus -- o Deus que ao longo da história utiliza seu poder para levar misericórdia e justiça aos pobres e que, como tal, é digno do louvor com que se inicia o cântico de Maria.
 
Para começar, Maria rende tributo ao Senhor como “Deus, meu Salvador” (v. 47), utilizando assim a linguagem que aparece em várias passagens do Antigo Testamento. Logo em seguida (v. 47-50), descreve a maneira como esse seu Deus leva a cabo a salvação. O que ela destaca é que em seu caso Deus “atentou na baixeza de sua serva” e usou seu poder para fazer “grandes coisas” por ela. A única explicação para que ela fosse escolhida para ser a mãe do Messias foi a misericórdia de Deus. Para esse fim Deus podia ter escolhido uma mulher da nobreza, uma filha de Herodes, o Grande, ou de Anás, ou de Caifás. Por sua misericórdia, no entanto, escolheu uma mulher (diríamos hoje) da classe trabalhadora; não de Jerusalém, a cidade do rei Davi, mas de uma pequena cidade galileia da qual Natanael diria posteriormente: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (Jo 1.46). A futura mãe de Jesus se sente devedora de Deus por sua misericórdia, e esse reconhecimento a leva a magnificar a Deus.
 
Maria se refere a si mesma como “humilde serva” e, como tal, a receptora da misericórdia de Deus. Reconhece que Deus usou seu poder (é “Poderoso”) para beneficiá-la. Ao mesmo tempo, sabe bem que ao longo da história (“de geração em geração”) essa misericórdia se estende por igual “aos que o temem”, ou seja, àqueles que não se orgulham do que são ou do que têm, mas que dão a Deus o lugar que lhe corresponde, especialmente os de humilde condição, como ela. Deus se deleita em exaltar os humildes: os pobres, os fracos, os excluídos, os marginalizados, os representados pela clássica tríade que aparece no Antigo Testamento múltiplas vezes: os órfãos, as viúvas, os estrangeiros. E esta é uma segunda causa para louvar a Deus.
Traduzido por Wagner Guimarães.
 
• C. René Padilla é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de O Que É Missão Integral?.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

A missão do reino de Deus (parte 2)

A missão do reino de Deus (parte 2) – Edição 338 | Revista Ultimato


A missão do reino de Deus (parte 2)

René Padilla
A promessa articulada inicialmente pelo profeta Natã (2Sm 7.12-16), de que Deus governaria seu povo e restauraria sua glória por meio de um rei sucessor de Davi, foi uma das pedras fundamentais da esperança escatológica de Israel ao longo de sua história registrada no Antigo Testamento. A convicção de que Deus não rescindiria permanentemente o pacto davídico se manteve firme ainda em meio ao sofrimento sob o juízo de Deus causado pela infidelidade expressa especialmente na prática da injustiça e da idolatria. Jeremias 23.5-6 exemplifica bem essa esperança: após o anúncio do castigo a reis malvados, vem uma palavra de esperança que tem como foco o advento de um descendente de Davi que “reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra”. Com o tempo, essa esperança, filtrada pela peneira de aspirações nacionalistas, teria como resultado a construção ideológica de um reino judio regido por um descendente de Davi com sede em Jerusalém.
Várias passagens do Antigo Testamento refletem a esperança de restauração de Israel por meio de um “messias”, um ungido de Deus, ainda que com importantes variantes no que tange aos termos em que se cumprirá tal esperança. Em Isaías, por exemplo, ela é vinculada ao advento do Servo sofredor do Senhor. Vivendo em um período marcado pela opressão assíria, este profeta do oitavo século antes de Cristo vislumbra a intervenção de Deus na história de Israel na pessoa e obra do Servo do Senhor, sobre quem Deus pôs seu Espírito (Is 42.1). Os primeiros versículos do capítulo afirmam reiteradamente que sua missão terá como foco a justiça: “Trará justiça aos gentios” (v. 2); “com verdade trará justiça” (v. 3); “não faltará, nem será quebrantado, até que ponha na terra a justiça” (v. 4); “Eu, o Senhor, te chamei em justiça” (v. 6). 
Vale assinalar, no entanto, que a ênfase na justiça como o cerne da missão de Deus que se realiza por meio de seus servos (entre os quais se destaca o Servo sofredor do Senhor) não concebe a justiça em termos abstratos. É, na verdade, uma ênfase em uma tomada de posição concreta a favor de pessoas de carne e osso, vítimas da injustiça. Para isso aponta Isaías 61.1-3, passagem que ocupa um lugar privilegiado na definição que Jesus faz de seu próprio ministério no seu sermão inaugural deste, segundo Lucas 4.18-21, como veremos mais adiante. A esperança a que Isaías 61 se refere tem a ver com a chegada de uma nova era que será a restituição do jubileu -- “o ano aceitável do Senhor”, o ano da libertação --, que constitui o tema central do anúncio de “boas novas aos mansos”. E não será um anúncio vazio, mas um anúncio ratificado pela ação do Ungido de Deus a favor dos “deserdados da terra”: os pobres, os cativos, os cegos, os oprimidos.
Além das figuras do rei descendente de Davi e do Servo sofredor do Senhor, para compreender as expectativas messiânicas que estavam em voga nos tempos de Jesus, há que se levar em conta também a figura descrita pelo profeta Daniel como “o filho do homem” que “vinha nas nuvens do céu”, a quem foi “dado o domínio, e a honra, e o reino”, de modo que “todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído” (Dn 7.13-14). Esta visão do “Filho do Homem” teve um papel importante na literatura apocalíptica do primeiro século antes de Cristo e do primeiro século depois de Cristo, na qual essa figura era identificada com o Messias, por meio do qual Deus estabeleceria seu reinado de paz e justiça. De todos os títulos que se aplicam a Jesus nos Evangelhos, “Filho do Homem” é o mais comum; aparece sessenta e nove vezes nos Evangelhos Sinóticos e treze vezes no Evangelho de João. E em todos estes casos, exceto três, quem o usa é Jesus para referir-se a si mesmo na terceira pessoa.
Traduzido por Wagner Guimarães
• C. René Padilla é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de O Que É Missão Integral?.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A missão do reino de Deus (parte 1)

A missão do reino de Deus (parte 1) – Edição 337 | Revista Ultimato


A missão do reino de Deus (parte 1)

René Padilla
Em sua essência, a missão da Igreja é a missão do reino de Deus. A expressão “reino de Deus” — ou “reino dos céus” — aparece mais de cem vezes nos Evangelhos, frequentemente na boca de Jesus. Ainda que não se encontre no Antigo Testamento, para entendê-la devidamente é necessário interpretá-la à luz da esperança messiânico-judaica derivada do Antigo Testamento. Vejamos, primeiramente, em que consistia essa esperança para o povo de Israel, para depois refletirmos sobre seu cumprimento por meio de Jesus Cristo.
 
O êxodo é o evento por meio do qual Deus liberta Israel da escravidão do Egito em resposta ao seu clamor. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó chama Moisés para tirar seu povo da opressão e levá-lo a “uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel” (Êx 3.7-10). O primeiro beneficiado é Israel, mas sua libertação tem um propósito de alcance universal: Deus quer constituí-lo “luz das nações”, um povo exemplar quanto à prática do monoteísmo e da justiça. Para isso apontam passagens como Levítico 19.9-18; 25.1-55 (o jubileu) e Deuteronômio 10.1-19; 15.4, 7-9; 16.19-20; 24.17-22. Assim, a promessa do pacto de Deus com Abraão terá seu cumprimento: “E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei [...] e em ti serão benditas todas as famílias da terra (Gn 12.2-3). 
 
Era parte do propósito de Deus fazer de Israel uma teocracia. No entanto, Israel abandonou esse propósito ao constituir-se em um povo regido por uma monarquia, com um rei que os governava, “como o [tinham] todas as nações” (1Sm 8.5; cf 8.19-20). A monarquia, estabelecida inicialmente como uma resposta que Samuel recebeu por parte dos israelitas nas circunstâncias descritas em 1 Samuel 8, fracassou. Quase todos os reis de Israel, longe de conduzirem o povo pelo caminho da obediência à lei de Deus, usaram seu poder para enriquecimento próprio e fomentaram a idolatria. Uma eloquente ilustração do juízo de Deus que espera os monarcas que deixam de lado a justiça é o juízo que Jeremias anuncia contra os reis perversos no capítulo 22 de seu livro. O que os espera por haverem institucionalizado a injustiça, oprimindo o estrangeiro, o órfão e a viúva, derramando sangue inocente (v. 3; cf. v. 17), explorando o próximo (v. 13) e buscando lucros desonestos (v. 17) é a destruição (v. 5-9) e o exílio (v. 10, 22, 24-27). 
 
Várias vezes, no entanto, a palavra de juízo vem acompanhada pela promessa de restauração, expressa frequentemente em termos que apontam para o pacto de Deus com Israel. É o que acontece, por exemplo, em Jeremias 23.5-6. Ao anunciar o castigo dos reis, vem uma palavra de esperança que tem como foco o advento de um descendente de Davi que “reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra”. No campo coberto de erva daninha, resultado da injustiça e da apostasia, Deus, em sua graça, faz florescer a esperança messiânica.
 
Muitos estudiosos concordam que a promessa de Deus para Davi por meio do profeta Natã em 2 Samuel 7.12-16 está na base dessa esperança. A promessa é que Deus exercerá o governo de Israel por meio de um rei sucessor de Davi. Por seu pacto davídico, Deus abençoará Davi e sua descendência incondicionalmente com um reino político terreno que durará para sempre. Tal promessa foi interpretada pelos judeus como uma promessa que se cumpriria escatologicamente, ou seja, no futuro. À luz desta esperança, não é difícil imaginar o desalento dos israelitas quando são derrotados e exilados por reis pagãos. Então se perguntam se Deus os esqueceu. Os profetas respondem que a derrota é consequência da idolatria e da injustiça por parte da monarquia. Consideram que o objetivo do poder político, econômico ou militar dos reis não é buscar seu próprio bem-estar, mas fazer justiça, ou seja, garantir que cada pessoa, família, clã ou tribo receba a proporção correta de poder e bens. Quando não cumprem seu dever, tanto os governantes como o povo sofrem as consequências.
Traduzido por Wagner Guimarães.
• C. René Padilla é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de O Que É Missão Integral?.