A Ascensão de Jesus lembra que o lugar de testemunhar é aqui na terra, no lugar onde se vive, no meio do povo, com todas as suas dificuldades e pedras no caminho.
Lembrei-me desse poema de Drummond ao pensar no significado da Ascensão de Cristo na vida litúrgica da igreja. Celebramos a festa da ressurreição, promessa de esperança da vida que não termina – eterna –, com os olhos postos em Pentecostes – a vinda do Espírito Santo, que marca o surgimento da igreja.
O que move a vida da igreja de um modo geral são as festas. Se olharmos para nosso calendário litúrgico, os grandes momentos são festivos. Acrescentemos ainda os eventos festivos de cada comunidade.
A Ascensão está no “meio do caminho” entre duas grandes festas e passa “meio que despercebida”, pois sempre acontece no “meio da semana”. Também os evangelhos descrevem esse evento “meio que resumido”. Neste ano, a Ascensão do Senhor é comemorada na quinta-feira dia 2 de junho.
É importante lembrar que festas são momentos em que recordamos os grandes feitos de Deus na vida do povo e da igreja. Momentos decisivos que impulsionaram a caminhada do povo. Festa é lugar de fazer memória antes de celebrar, assim como na Santa Ceia, em nosso aniversário ou no final de cada ano. Relembrar é preciso!
Por isso vale lembrar que o relato da Ascensão em Lucas 24.50 a 53 está inserido no “meio de uma crise” da comunidade. Depois da ressurreição, os discípulos e discípulas seguiram colocando em prática os ensinamentos de Jesus, mas, com o passar do tempo, as lideranças se foram, as dificuldades aumentaram por causa da perseguição e morte daqueles que eram do Caminho (Atos 9.2). E os cristãos e cristãs daquela época perguntavam: Para onde ir? Como seguir? Como encontrar o rumo da caminhada? Como levar adiante o compromisso assumido de divulgar o evangelho até os confins da terra?
Também em nossas comunidades, passadas as festas, entramos num período de letargia. O povo desaparece, e ficam apenas aquelas pessoas que perseveram no trabalho rotineiro. E as perguntas sempre estão presentes. Como motivar as pessoas a permanecer vinculadas ao cotidiano da vida da igreja? Como fazer missão?
Muitas vezes, para manter a “audiência e o público animado”, continuamos realizando atividades extras para animar e reunir o povo. A Ascensão de Jesus lembra que o lugar de testemunhar é aqui na terra, no lugar onde se vive, no meio do povo, com todas as suas dificuldades e pedras no caminho. Não adianta reclamar nem olhar para o céu esperando algo acontecer. Missão se faz com os olhos fitos na realidade.
O evangelista Lucas descreve que, antes de Jesus se retirar para os céus, ele abençoou os discípulos. Também nós somos abençoados em nossas vidas e atividades que realizamos em nossa Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).
Compartilho uma bonita experiência que estamos vivenciando na Comunidade Evangélica Luterana Missionária do Vale do Atibaia (CELVA). Há cerca de três anos, iniciamos a construção de nossa igreja. Somos uma pequena comunidade, área de missão na União Paroquial Luterana Região de Campinas (UPLRC), e para muitos a obra parecia algo impossível de ser realizado.
Alguns olhavam desconfiados, críticos, mas muitos ousaram crer e trabalhar para que o projeto se concretizasse. Ao invés de olhar para o céu, colocaram as mãos e os pés a serviço. Estamos prestes a inaugurar com a certeza de que Deus nos tem abençoado cada dia, não só pela construção, mas porque muitas pessoas se doaram e passaram a crer e trabalhar dando um testemunho de fé e ação.
A Ascensão de Jesus desafia-nos a buscar um novo olhar. Muitas são as oportunidades para seguir testemunhando até que ele venha. Enquanto aguardamos, mesmo que no “meio do caminho haja pedras”, não nos esqueçamos dos acontecimentos “daquele tempo” e da promessa que ele fez, que continua valendo para nós ainda hoje.
E, retomando o poeta, digamos:
“Nunca me esquecerei
desse acontecimento
na vida de minhas retinas
tão fatigadas.
Nunca me esquecerei
que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra
no meio do caminho”
Mas ela foi retirada!
Não está mais ali!
Podemos seguir com fé!
* Teóloga e ministra da IECLB, coordena os Cursos de Gênero e ONLINE na CESEP em Campinas (SP)
Fonte: Neusa Tetzner *
extraído: www.novolhar.com.br
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