Jason Nelson
A sabedoria popular costuma dizer que “a pressa é inimiga da perfeição”.
Assim é no trânsito, por exemplo. Pressa não combina também, num primeiro momento, com família, relações de afeto e de amizade, vida em comunidade e em sociedades democráticas. Há certos processos e vivências que precisam de tempo, ainda que seja necessário, por vezes, ter pressa na iniciativa e na mudança de atitude.
Por que a pressa, Maria?
De onde vêm tua disposição de tempo e tua doçura?
Maria recebeu do mensageiro de Deus a notícia de que ficaria grávida pelo poder do Espírito Santo e daria à luz o Filho de Deus. Na mesma ocasião, tomou conhecimento da gravidez de sua parenta Isabel, já idosa, “porque para Deus nada é impossível”. Sua resposta foi a entrega completa de sua vida aos desígnios de Deus.
“Alguns dias depois, Maria se aprontou e foi depressa para uma cidade que ficava na região montanhosa da Judeia” (cf. Lucas 1.39-56). Maria tinha pressa para encontrar-se com Isabel e alegrar-se com ela. Maria tinha pressa para auxiliá-la na lida da casa e nos preparativos para a espera do bebê, visto que Isabel já estava no sexto mês de gravidez. Maria teve pressa para dedicar-se ao que realmente era importante naquele momento: para a cumplicidade na fé, na alegria e na solidariedade. Junto a Isabel, Maria teve tempo. Ficou com Isabel mais ou menos três meses. Maria faz-nos ver a importância de eleger prioridades.
O encontro entre Maria e Isabel fez brotar do coração de ambas genuíno louvor a Deus. “Você é feliz, [Maria], porque acredita que vai acontecer o que o Senhor lhe disse”, exclamou Isabel, sentindo o bebê movimentar-se em seu útero. Maria louvou a Deus com todo o seu ser, porque experimentou, ela própria, sua ação amorosa e surpreendente.
Deus não escolheu para ser mãe de seu Filho uma das moças importantes de sua época, da esfera política ou religiosa, mas uma jovem desconhecida, pobre e humilde, uma “Maria ninguém”. Maria louvou a Deus porque ele “se lembrou” dela; louvou-o porque ele agiu na vida de seu povo com tal bondade, destronando os poderosos e colocando os humildes em altas posições. Essa foi também a razão do canto de Ana, a mãe de Samuel, quando Deus lhe concedeu um filho (1 Samuel 2.1-10).
Daí a referência de Martim Lutero a Maria como “a doce mãe de Cristo” em seu texto ao príncipe João Frederico, no ano de 1521, quando lhe apresentou uma explicação do canto de louvor de Maria – o Magnificat – a seu pedido. A “doçura” de Maria está em permanecer humilde mesmo com a ciência de ter sido lembrada por Deus. A sua “doçura” revela-se também certamente na pressa para a companhia e o serviço à parenta grávida e na disposição de tempo para estar com ela ainda que carregue em seu ventre o Filho de Deus.
A atitude de Maria faz-nos perceber situações que exigem, de nossa parte, pressa e, concomitantemente, tempo e doçura, para a oração e a ação: pressa no socorro e no apoio às vítimas das enchentes e desmoronamentos ou da seca em diferentes estados brasileiros; às milhares de vítimas em função do terremoto, do tsunami e do vazamento em usina nuclear no Japão; pressa para a mudança política, econômica e social em muitos países; pressa para investir numa educação de qualidade que priorize a formação de pessoas cidadãs comprometidas com a sociedade na qual vivem. Nesse sentido, vale lembrar o que disse o reformador Martim Lutero referindo-se ao cântico de Maria: “Todos os que quiserem governar bem e ser boas autoridades devem aprender bem e guardar na memória aquele cântico”.
Bem perto de nós também se faz necessária pressa para socorrer pais e mães já idosos, tempo e doçura para os cuidados que a vida na terceira idade requer; pressa e tempo para estar com os filhos e as filhas pequenos e jovens e doçura para acompanhá-los em seu crescimento e desenvolvimento; pressa, tempo e doçura para relacionamentos mais verdadeiros e duradouros; pressa para ir ao culto e tempo para estar com as pessoas que partilham da mesma fé; pressa, tempo e doçura para a construção de comunidades mais inclusivas, dinâmicas e solidárias.
Quando os pastores de ovelhas souberam do nascimento de Jesus, eles foram depressa a Belém para adorar o menino Deus nascido numa estrebaria (Lucas 2.16). As mulheres, primeiras testemunhas da ressurreição, com medo, mas alegres, foram depressa anunciar o Cristo vivo (Mateus 28.7s). A palavra de Deus traz tamanha novidade, que nos desinstala e nos coloca em movimento: Faz ter pressa, tempo e doçura!
* Mestra em Teologia, pastora da IECLB em Campo Novo do Parecis (MT)
Fonte: Scheila dos Santos Dreher *
extraído: www.novolhar.com.br
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