sábado, 17 de agosto de 2013

NÃO QUERO PERDER A PACIÊNCIA NEM COM OS OUTROS NEM COMIGO MESMO

Não quero perder a paciência nem com os outros nem comigo mesmo – Edição 329 | Revista Ultimato

Não quero perder a paciência nem com os outros nem comigo mesmo

A partir de hoje, com a ajuda de Deus, não quero perder a paciência facilmente. Farei um esforço enorme para comportar-me dessa maneira. Sei que, por causa de mim mesmo e dos outros, não será fácil. Devido à falta de amor, autocontrole, respeito, tempo, misericórdia e até mesmo educação, tenho cometido a asneira de perder a paciência, tratando mal os outros e prejudicando a minha saúde, o meu humor, a minha consciência e o meu relacionamento com Deus.

De fato, há pessoas com as quais é difícil ter paciência. São pessoas incômodas, insistentes, incorrigíveis, intransigentes, maçantes, aborrecíveis. Lidar com elas pode ser uma tarefa árdua, um sacrifício. Porém, é meu dever como cristão. A falta de paciência custa mais caro do que a paciência em si. Não há como escapar da paciência. O servo do Senhor, diz a Bíblia, não deve andar brigando, mas deve tratar a todos com educação, bondade e paciência (2Tm 2.24). Não há virtude alguma em não perder a paciência com pessoas que não nos induzem à impaciência. Está registrado no mais bem escrito poema de amor que “quem ama é paciente e bondoso” (1Co 13.4, NTLH).

Não posso perder a paciência nem com as pessoas, nem com outras situações. É preciso tê-la diante do infortúnio, do imprevisto, do sofrimento, da doença, das limitações, da terminalidade, do período de espera de algum acontecimento etc. Nesse sentido e nessa área ninguém foi mais paciente do que Jó: o homem que perdeu tudo de uma só vez -- riqueza, filhos, saúde e status (Tg 5.11).

O que deve me encorajar na prática da paciência é a paciência que uma boa parte dos meus familiares e amigos têm comigo. Eles também gastam energia para me tratar com paciência. A paciência é uma bem-aventurada troca entre marido e mulher, entre pais e filhos, entre colegas de trabalho, entre irmãos na fé e entre amigos. Só assim será mantida a paz doméstica, a paz na igreja, a paz no trabalho, a paz na sociedade.

Tomarei, também, todo cuidado para não perder a paciência comigo mesmo. Não vai adiantar eu perder a paciência quando voltar a errar, quando me parecer intragável, quando me sentir hipócrita, quando enxergar todo o meu histórico negativo ou quando tomar conhecimento do meu déficit moral. Eu me perdoarei em Cristo e me darei outra oportunidade. Se eu não me portar assim, posso acabar dando um tiro no ouvido.

Jamais devo me esquecer da paciência de Deus para com os pecadores e para comigo. Ele sempre é “compassivo e misericordioso, muito paciente, rico em amor e em fidelidade” (Sl 86.15). É por isso que eu posso chegar diante dele e fazer a oração do publicano: “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador” (Lc 18.13). Porém, depois de ser beneficiado pela paciência de Deus, obrigo-me a ser paciente com todos os meus credores, de acordo com a parábola do servo impiedoso (Mt 18.21-35).


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O NOME ACIMA DE QUALQUER OUTRO NOME

O nome acima de qualquer outro nome – Edição 335 | Revista Ultimato

O nome acima de qualquer outro nome

Paulo não diz que o nome de Jesus será o mais importante de todos os nomes. Ele já é o nome mais exaltado desde a ressurreição e a ascensão. Mesmo antes da plenitude da salvação. Muitos fatos são responsáveis por isso.
Para datar os acontecimentos anteriores ao nascimento de Jesus, os historiadores escrevem o ano acompanhado da sigla “a.C.” (antes de Cristo). Para datar os acontecimentos imediatamente posteriores, usam “d.C.” (depois de Cristo). Para fornecer qualquer documento, os escrivães colocam o ano seguido da expressão “da era cristã”.
 
Por chamarmos de domingo (o dia do Senhor) o primeiro dia da semana, quer saibamos ou não, quer creiamos ou não, relembramos de sete em sete dias um dos pilares do cristianismo: a ressurreição de Jesus.
 
Mesmo desconhecendo o solene significado da cruz, ela é o símbolo religioso mais exposto. Mais do que a estrela de Davi, do judaísmo, o crescente lunar, do islamismo, a palavra OM, em sânscrito, do hinduísmo, a roda viva, do budismo, e o torii, dos xintoístas. A cruz está em todo lugar -- nas igrejas, nos cemitérios, no alto dos morros, nos nichos, nos monumentos, nas pinturas, nos adornos, nas tatuagens.
 
Mais da metade do credo dos apóstolos refere-se a Jesus Cristo. A declaração “creio em Jesus” é a mais antiga, a mais conhecida e a mais repetida de todas as confissões de fé da igreja cristã por quase dois milênios.
 
As Escrituras Sagradas são o mais antigo, o mais traduzido, o mais vendido e o mais lido best-seller, que testifica de Jesus tanto no Antigo Testamento como no Novo.
 
A maior de todas as declarações de amor, a mais divulgada e a mais decorada em qualquer lugar onde haja pelo menos um cristão, diz respeito a Jesus: “Porque Deus amou tanto o mundo, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).
 
O Natal (que aponta para o fato de que o Verbo se fez carne) e a Sexta-feira da Paixão (que aponta para a ruptura do véu que separava o Criador da criatura) são os feriados mais consagrados e mais internacionais do calendário ocidental.
 
A cerimônia religiosa mais repetida em todos os círculos cristãos desde que foi instituída (na véspera da crucificação) -- celebrada por alguns todos os dias e, por outros, todos os domingos, todos os meses ou todos os anos -- rememora a pessoa de Jesus Cristo e seu sacrifício vicário (“Façam isso em memória de mim”). Chama-se Santa Ceia, Eucaristia ou o partir do pão.
 
“Jesus” é o filme mais traduzido -- para mais de 1.060 línguas e dialetos --, mais projetado e mais visto -- por mais de 200 milhões de pessoas -- da história.
 
O que ainda não aconteceu é o momento em que todas as criaturas no céu, na terra e no mundo dos mortos vão cair de joelhos e declarar abertamente que Jesus Cristo é o Senhor (Fp 2.10-11).


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O CÉU ABERTO DE C. S. LEWIS

O céu aberto de C. S. Lewis – Edição 329 | Revista Ultimato


O céu aberto de C. S. Lewis

Quem já leu C. S. Lewis sabe que a imagem das sombras é recorrente em seus escritos. De fato, ele teve várias experiências de céu fechado, que lhe renderam muitas noites sombrias. O raiar do dia, a vinda da primavera, a luz do sol vêm sempre associados à sua busca por joy: alegria, júbilo, festa, a pátria perdida. 

De onde veio esse anseio? Como ele, tendo sido ateu e materialista anos a fio, pode ser considerado, até hoje, o apologeta entre céticos, cujos livros se vendem aos milhares mundo afora?

Catedrático de Oxford e Cambridge de literatura inglesa, Lewis foi reconhecido por algumas obras de crítica literária. Porém, notabilizou-se pelas obras de ficção, pelas quais retrata de diversos ângulos a sua história de filho pródigo, crivada por ironias e alegorizada em “O Regresso do Peregrino”, numa alusão a Bunyan.

Um dos atores principais da conversão desse irlandês de volta ao protestantismo, seu colega em Oxford e grande amigo, J. R. R. Tolkien, criador da celebrada trilogia de “O Senhor dos Anéis”, era católico ortodoxo romano.

Outra ironia é que Lewis, que tanto falava em sofrimento, teve muitos problemas com o sofrimento na vida real. Entre as perdas sofridas estavam a sua mãe, um colega de guerra no “front”, seu pai, um grande amigo e, quem sabe a maior de todas, sua esposa, Joy. Suas terapias para lidar com a dor eram ler, escrever e debater literatura com os amigos.

Segundo “O Mais Relutante dos Convertidos”, de David Downing, a felicidade na infância durou do seu nascimento, em 1898, até o falecimento de sua mãe, que era o alento da família com o seu refrescante equilíbrio emocional. Seu pai sofria de depressões e flutuações de ânimo, e por isso foi tachado de sentimental. Sua mãe era professora de matemática, filha de um pastor protestante. Até que foi vitimada pelo câncer, quando Lewis tinha nove anos de idade. 

Depois disso, Lewis e seu irmão mais velho, Warren, percorreram vários internatos ingleses -- um deles parecia um campo de concentração e foi fechado com a internação de seu diretor por insanidade mental. Seu ambiente insalubre e sombrio, que “nem ao menos tinha biblioteca”, é retratado em “Surpreendido pela Alegria” (SPA), sua autobiografia. Voltou então à Irlanda para estudar no Colégio “Campbell”, onde foi perseguido por gangues.

Depois, ingressou no colégio “Cherbourg”, que era preparatório para a Universidade de Oxford. Nele, foi “adotado” por uma “mãe substituta”, que era espiritualista. Lewis descreve esse período como sendo a fase de queda em sua vida, em que pôs Deus em questão (cf. biografia de A. Nichola), principalmente pelo fato de Deus ter ignorado as suas súplicas pela cura da mãe. Tornou-se ateu.

Então, seu pai cedeu ao pedido de ter aulas particulares com William Kirkpatrick, que havia sido professor de seu pai. Lewis estudou com ele por três anos. Esse senhor, já idoso e ateu convicto, era muito admirado por Lewis, pois lhe dava uma formação nos moldes dos “clássicos”. Alguns autores que passaram a ler suas obras admitem que Lewis tornou-se um adolescente materialista “esnobe”, que tentava evitar Deus de todos os modos. Passou a apreciar as coisas tidas como racionais e científicas. Porém, continuava a manter a paixão pelos mitos e contos de fada. Foi assim que “tropeçou” num volume de “Phantastes”, de George MacDonald. Anos depois ele escreveria em SPA que esse livro “batizou” a sua imaginação de modo silencioso. 

Seus estudos em Oxford iniciaram-se em 1916. Já no ano seguinte, alistou-se para a guerra. No exército, fez amizade com o colega Paddy Moore. Depois de conhecer sua mãe e irmã numa folga, prometeu ao amigo cuidar delas, caso ele morresse. O amigo jurou o mesmo em relação ao pai de Lewis. Lewis acabou ferido por um estilhaço de bomba -- fato que o fez retornar a Oxford. Seu amigo morreu no “front”.

No mesmo ano em que publicou uma série de poemas bem “obscuros”, que não alcançaram sucesso, ele passou a sustentar a Sra. Moore e a filha e retomou os estudos.
Nos primeiros anos de bacharelado, sua alma entrava em crise, dividida entre o provedor de uma família e o estudante desprovido de mãe e com o pai ausente; entre seu lado racional e o imaginativo; o frio e calculista e o emocional. Tornou-se, assim, um ser em busca de algo que não sabia precisar. Ele também havia se tornado um platônico, pois via uma “guerra” sendo travada não apenas “lá fora”, mas “dentro” dele: entre o espírito e a matéria, que devia ser maniqueisticamente “domada”.

Os anos seguintes aos de 1923 foram de descoberta do desejo pelo oculto e o conhecimento pessoal de um poeta que muito admirava: Yeats. Contudo, acabou se assustando com o aspecto sombrio da casa do autor e o estilo de vida de seus donos, que eram espiritualistas. Decepcionou-se ainda com episódios de possessão (presenciados por ele em diferentes contextos), que o afastaram do ocultismo.
Ainda em 1923, Lewis se impressionava com a leitura de “Phantastes”. Ele escreve a um amigo de infância relatando a sua apreciação por tal obra. Havia se tornado um idealista e panteísta, depois de ler autores ingleses, que negavam a Deus, exaltando os ideais humanos e os potenciais da natureza.

Dois anos depois, conheceu J. R. R. Tolkien e registrou em seu diário que ele reunia dois “defeitos” que lhe recomendaram evitar: era papista (católico) e filólogo.
Foi em Oxford, também, que conheceu um grupo de amigos, sobre o qual observou que, para a sua surpresa, eram cristãos e, ao mesmo tempo, inteligentes!

Começou, então, a apreciar os escritos de Chesterton. À semelhança do ocorrido a esse autor (cf. “Ortodoxia”), ele era como um náufrago que saiu de uma ilha, para acabar regressando à mesma. Notou ainda, num retrospecto de suas leituras, que os autores que mais amava tinham o mesmo “defeito” de serem cristãos, inclusive MacDonald -- o que lhe parecia uma “traição”.

Assim, chegou à noite da Páscoa de 1939, em que Lewis saiu com esses amigos para conversar sobre Deus e o mundo. Porém, o argumento que o pôs de joelhos ao lado da cama veio de Tolkien. Ele o fez reconhecer que havia algo em comum entre os mitos, que eram a razão de ser daquele grupo: a narrativa sobre um mal assolando um povo e um deus que sai em resgate dele, sacrificando-se por ele (e algumas vezes, ressuscitando). Se todos os povos de todas as línguas, eras e culturas contam, em essência, a mesma história, então ela tinha de ser verdadeira. 

E então, Tolkien deferiu o golpe final: na história de Cristo, que tinha a mesma estrutura daquela dos mitos, o mito e o fato se casaram. A história da paixão é aquela que faz tudo se encaixar, dando sentido ao que se conta de forma profética por meio dos contadores de história de antes ou depois da sua vinda. A diferença de Cristo é que ele era real e sua história, verdadeira.
Iniciou-se, assim, um longo processo, que muitos não chamariam de conversão, por não ter envolvido qualquer experiência extraordinária. Contudo, representou, sim, uma guinada no caminho que Lewis estava trilhando. Quando estamos andando no sentido errado só podemos avançar se dermos a volta, retornando à estaca zero. 

O primeiro passo foi o reconhecimento da existência de Deus -- o que fez dele um teísta. Num segundo momento, ainda conversando com seus colegas, com os quais fundaria um clube, percebeu que esse Deus não podia ser uma força transcendental, sem nome ou face. Tudo indicava que ele deveria ser pessoal e interferir no mundo. Se não, como explicar fatos inexplicáveis, como o mal?

Foi em um passeio de motocicleta com o seu irmão ao zoológico, que Lewis, já convertido, finalmente reconheceu que Jesus é Deus. Diz ele, em “SPA”, que saiu não crendo em Jesus e voltou crendo.

Quando o processo se completou, sua imaginação se libertou, produzindo a riqueza de obras com as quais nos brindou, incentivando-nos a sair ao encontro dos que estão a caminho, usando uma linguagem universal.

Apesar de ter sido um converso “relutante”, Lewis não foi um converso inseguro ou hesitante; tanto que confessa que foi capturado por algo sobrenatural, que pôs o “self-made man” em cheque.

O cristianismo tornou-se para ele como uma grande casa com vários cômodos (cf. “Cristianismo Puro e Simples”). Com isso, era um dos mais livres convertidos, pois sua fé lhe permitia dialogar com todas as religiões e crenças; além de ser um dos mais apaixonados e convictos apologetas cristãos da história. Não praticava proselitismo. Antes, valorizava a sabedoria por trás de toda arte, cultura e religião humanas, desde as mais antigas, fazendo-as aflorar e apontar para além do céu fechado.

Para Lewis, melhor é ser um pagão que não conhece as verdades do evangelho, do que um cristão por demais familiarizado com elas. Nesse sentido, o pagão está mais perto de Deus do que o cristão nominal, que nunca se arriscou para fora do mundo construído a seu redor.

A prova de fogo da sua teoria de que o sofrimento é o megafone de Deus, que anuncia a “magia mais profunda de antes da aurora dos tempos”, é retratada no filme “Shadowlands”, nas últimas palavras de Joy, que ele desposou após o diagnóstico de câncer. Elas refletem as palavras de Aslam, ao explicar a morte às crianças em “A Última Batalha”: “Seu pai, sua mãe e todos vocês estão mortos, como se costuma dizer na Terra das Sombras. As aulas acabaram: chegaram as férias! Acabou-se o sonho: rompeu o amanhã!” (tradução própria).

• Gabriele Greggersen é missionária no mundo acadêmico e doutoranda em estudos da tradução pela UFSC. www.cslewis.com.br



quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O CÉU ABERTO DE AGOSTINHO

O céu aberto de Agostinho – Edição 329 | Revista Ultimato


O céu aberto de Agostinho

Aurélio Agostinho (13/11/354 – 28/08/430), natural de Tagaste, Numídia (atual Argélia, norte da África), filho de Patrício e Mônica, foi, sem dúvida, um dos mais influentes pensadores que o cristianismo produziu em sua trajetória, por enquanto, duas vezes milenar. Bispo de Hipona (atual Annaba, Argélia) e doutor da Igreja (conhecido pela alcunha de Doctor Gratiae, “doutor da graça”, pela forte ênfase dada à graça divina na vida cristã), Agostinho é fonte da qual bebem católicos e protestantes. Os católicos o têm na categoria de “santo”. Os ortodoxos orientais aplicam-lhe o título altamente respeitoso de “Bendito Agostinho”. E os protestantes devem muito de sua teologia ao teólogo africano: vale lembrar que Lutero, antes de iniciar o movimento reformador, era monge agostiniano, e Calvino foi profundamente influenciado pela teologia agostiniana. O reformador francês cita Agostinho mais que a qualquer outro teólogo, medieval ou patrístico, ocidental ou oriental. Antes da Reforma, Agostinho fora o teólogo mais influente durante toda a Idade Média. Todos os pensadores cristãos medievais tinham a sombra de Agostinho pairada sobre suas cabeças. Tomás de Aquino, não menos famoso, da Ordem dos Pregadores (dominicanos), é um dos exemplos. Seu pensamento teológico não poderá ser compreendido a não ser à luz do pensamento de Agostinho. De igual maneira, outros teólogos medievais importantes, como Boaventura e Hugo de São Vitor, também foram influenciados por ele. Em nossos dias, o teólogo católico Josef Ratzinger, conhecido como Papa Bento 16, também é bastante influenciado pela teologia de Agostinho.

Agostinho, sem dúvida, era um homem privilegiado intelectualmente (não obstante, lamentou sua dificuldade em aprender a língua grega). Era também um escritor prolífico -- suas obras têm tido sucessivas edições em praticamente todas as línguas europeias. Suas principais obras são “Confissões” (um clássico não apenas da espiritualidade, mas também da literatura mundial) e “Cidade de Deus”. No entanto, escreveu muitas outras obras, disponíveis para o leitor em língua portuguesa. Um fato estranho é que, a despeito da inegável importância e influência de Agostinho para e sobre a teologia protestante, não há sequer uma de suas obras que tenha sido publicada no Brasil por editora teológica não-católica. Suas elaborações a respeito de temas teológicos complexos, como a predestinação, o pecado original, o problema do mal, a igreja (sua visão de igreja como “corpus permixtum”, isto é, comunidade formada simultaneamente por “trigo e joio”), a posição escatológica amilenista, e outros, ainda hoje são estudadas e defendidas. Sua compreensão do problema do tempo estava, com o perdão do trocadilho, adiante do seu tempo. Agostinho foi ainda o primeiro a pensar (no já citado “Cidade de Deus”) em uma filosofia cristã da história, ou seja, pensar o longo desenrolar da história a partir de uma perspectiva da soberania divina. Sua teoria da guerra justa, para o bem ou para o mal, também foi influente durante todo o decorrer da Idade Média e, em nossos dias, influencia a política externa do Partido Republicano dos Estados Unidos. Agostinho também escreveu a respeito do problema sinótico, ou seja, o problema da composição dos três primeiros evangelhos canônicos. A chamada “hipótese agostiniana” sustenta que o primeiro Evangelho escrito foi Mateus, seguido por Marcos, que teria usado como fontes o Evangelho de Mateus e a pregação de Pedro, e em terceiro o Evangelho de Lucas, que por sua vez teria usado como fontes os Evangelhos precedentes.

Contudo, não se pode, de modo algum, deixar de mencionar que Agostinho não foi apenas um intelectual de escritório, um teólogo teórico. Longe disso. Ele foi verdadeiramente um pastor, alguém preocupado com o andar com Deus e com a saúde da igreja. Quanto a isso, não se pode deixar de mencionar o encontro que Agostinho teve com o próprio Deus. Seu pai, Patrício, era pagão, mas sua mãe, Mônica, era cristã fervorosa. Quando jovem, Agostinho seguiu o exemplo paterno e, para tristeza da mãe, se entregou a uma vida dissoluta e desregrada. Porém, Mônica não cessou de orar pela conversão do filho. É conhecida a história de quando Agostinho, com a idade de 32 anos, na Itália, em companhia de seu amigo Alípio, ouviu uma criança que cantava “tolle et lege” (“toma e lê”); ao ouvir tais palavras, foi até o amigo, que estava com um exemplar das Escrituras. A primeira passagem que Agostinho leu foi Romanos 13.13-14 (NTLH): “Vivamos decentemente, como pessoas que vivem na luz do dia. Nada de farras ou bebedeiras, nem imoralidade ou indecência, nem brigas ou ciúmes. Mas tenham as qualidades que o Senhor Jesus Cristo tem e não procurem satisfazer os maus desejos da natureza humana de vocês”. O próprio Agostinho narrou em “Confissões” como sua vida foi mudada radical, profunda e permanentemente. Abraçou a fé cristã de todo o coração. Foi batizado pelo Bispo Ambrósio de Milão no ano 387. Ao voltar para sua região no norte do continente africano, foi ordenado sacerdote (391), depois eleito bispo coadjutor (auxiliar) em 396, e pouco depois disso passou para a condição de bispo principal -- categoria na qual ficou até sua morte. A conversão de Agostinho foi um divisor de águas definitivo em sua vida. A partir daí, todo o seu imenso potencial intelectual foi dedicado inteiramente à causa do reino de Deus. Há quem critique Agostinho pelo peso negativo excessivo que deu depois de sua conversão às questões de natureza sexual -- o que marcou e marca até hoje a ética sexual católica e protestante. Psicólogos falam do “complexo de Santo Agostinho” para se referir a quem parte de um extremo para o outro, de uma radicalidade para outra (no caso, de um extremo de devassidão a um extremo de ver questões sexuais como piores que outras). Independentemente disso, ninguém pode negar que Agostinho teve uma conversão verdadeira, que mudou verdadeiramente sua vida, não por seu próprio esforço, mas pela força da graça de Deus em seu coração.

• Carlos Caldas é doutor em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo e leciona na Escola Superior de Teologia e no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo.



terça-feira, 13 de agosto de 2013

CÉU ABERTO

Céu aberto – Edição 329 | Revista Ultimato


Céu aberto

O navio não tinha bússola. Deixou a ilha de Creta e dirigia-se à Itália. Navegava de leste a oeste no mar Mediterrâneo, entre o sul da Europa e o norte da África. Estavam a bordo o dono da embarcação, a tripulação e os passageiros, ao todo 276 pessoas. Dentre elas havia um oficial do exército romano, alguns soldados, alguns presos e um médico e historiador chamado Lucas. Um dos presos era Paulo de Tarso. O navio tinha saído de Alexandria, no Egito, e levava uma boa carga de trigo para Roma. Um vento forte o tirou da rota e uma tempestade escondeu o sol, a lua e as estrelas por duas semanas. O céu só se abriu depois do naufrágio do barco nas proximidades da ilha de Malta, ao sul da Sicília. Pode-se imaginar o alívio que o céu aberto trouxe para aqueles náufragos depois de tanto tempo de céu fechado (At 27).

A questão é que há outras situações de céu aberto mais importantes do que a de sentido literal. No mesmo livro de Atos há uma referência a céu aberto como metáfora, referindo-se à visibilidade de Deus e de sua glória. Trata-se do episódio envolvendo o primeiro mártir da história do cristianismo. Estêvão estava sendo apedrejado. A dor era enorme. A morte, iminente. Ninguém estava por perto para suspender o apedrejamento. Ele olha firmemente para o céu e vê a glória de Jesus Cristo. Então, Estêvão exclama: “Olhem! Eu estou vendo o céu aberto!” (At 7.56, NTLH). No derradeiro momento da vida, esse fervoroso cristão vê o céu aberto e não a escuridão da maldade humana e da morte.

Há nuvens espessas e muito escuras que se colocam entre a criatura e o Criador. É uma espécie de véu que encobre Deus e as demais realidades. Isso infelicita muita gente porque os priva de Deus -- sem o qual a alma geme o tempo todo. É mais fácil e menos complicado crer em Deus do que não crer nele. No entanto, essa nuvem ou esse véu esconde do homem aquele por quem ele aspira sem saber. Como entender a criação sem o Criador? Como entender a beleza, a ordem, a majestade, a funcionalidade, a imensidão das coisas criadas sem considerar a existência de Deus?
Como não crer em Deus se não há um povo sequer sem religião, em qualquer tempo e em qualquer lugar? Como não crer em Deus se até hoje o secularismo, o materialismo, o agnosticismo, o ateísmo e as ideologias, em separado ou todos juntos, não conseguiram apagar da mente humana a ideia de Deus? Como não crer em Deus se os escândalos, a perseguição e as guerras religiosas não foram suficientes para desacreditá-lo por completo? Como não crer em Deus diante do impasse da morte física e do mistério que a envolve?

O céu fechado não diz respeito apenas à incredulidade. Refere-se também à recusa em tratar Deus como Deus. Só depois de sujeitar-se resoluta e alegremente à soberania de Deus é que o ser humano pode exclamar: “Eu estou vendo o céu aberto!”.

Não podemos ser ingênuos. Enquanto alguns evangelizam, outros “desevangelizam”. A arte de atrapalhar a caminhada para o céu aberto existe. Jesus condenou aqueles que não entram “nem deixam que entrem os que estão querendo entrar” (Mt 23.13, NTLH).
A parábola do semeador diz que existe de fato um ladrão de semente: as aves do céu costumam comer as sementes do evangelho lançadas no coração humano, impedindo que elas sequer germinem (Mt 13.4, 19). Os homens não podem crer porque, segundo Paulo, “o deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Co 4.4). Todavia, a situação não é irreversível, pois os que querem sair da escuridão que os envolve e entrar no céu aberto podem e devem contar com a graça de Deus. Porque “esse véu só é tirado quando a pessoa se une com Cristo” (2 Co 3.14, NTLH)!


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

DEUS TRABALHA COM RITMO E GRAÇA

Deus trabalha com ritmo e graça – Edição 342 | Revista Ultimato


Deus trabalha com ritmo e graça

Sou um homem das letras lineares procurando entrar no universo das letras que dançam a poesia da vida. Aliás, as letras lineares parecem dançar bem com as letras curvas da poesia e assim enriquecem a vida e a nossa compreensão dela. O relato da criação, para o qual estamos olhando nesta série de artigos, só vem comprovar isso. Já o li tantas vezes, mas muito cativo da letra, sem perceber a poesia a dançar neste belíssimo retrato de Deus com a sua criação.
O autor deste relato é também um poeta. Um artista das letras a nos reservar contínuas surpresas, que se revelam à medida que a criação acontece. Do início ao fim deste primeiro relato (Gn 1.1–2.4), vê-se Deus intervindo numa realidade de caos com sua palavra criadora: “E disse Deus”. E, assim, palavra após palavra e dia após dia, a criação vai ganhando forma diante dos nossos olhos, num verdadeiro espetáculo de harmonia, ordem e complementação. De fato, precisamos mais do que meras letras para discernir o surgimento deste espetáculo que acaba modelando diante de nós um jeito de viver e de estabelecer prioridades, equilíbrio e saúde em nossa própria vida. Vamos olhar mais de perto e destacar um dos aspectos desta intervenção de Deus na realidade.
Deus trabalha!
A cada dia, no decorrer de todo o relato, Deus vai se relacionando de forma criadora e criativa com a realidade, num verdadeiro crescendo. Nos primeiros dias ele trabalha no espaço. Cria a luz para fazer frente às trevas que tudo ocupam, separa a água do firmamento e estabelece divisão entre a terra e a própria água. Assim que a terra emerge, surgem ervas, plantas e árvores e a fertilidade do espaço criado brota com vigor e beleza. Num segundo momento, surgem os mais variados tipos de animais, alcançando seu momento culminante com a criação do homem e da mulher. Cada dia tem sua peculiaridade e todos os dias são cheios de uma atividade transformadora e criadora. No entanto, tudo parece estar marcado por um ritmo tranquilo e fecundo, em que o trabalho de um dia contribui e estabelece a base para o trabalho do outro dia; e assim se constrói um todo harmônico e pronto para uma continuidade procriadora. Cada dia de trabalho é marcado pela “tarde” e pela “manhã”, e assim os dias vão se sucedendo sem que um dia anule o trabalho do dia anterior nem atropele a atividade do dia seguinte. Deus trabalha com ritmo, integração e promoção de vida.
Ao observar esse Deus que trabalha, há dois aspectos aos quais vale a pena nos atentar. Em primeiro lugar, ele nos ensina que o trabalho é bom e digno. Ou, em linguagem figurada, a segunda-feira é boa, e não simplesmente é o dia mais distante do próximo final de semana. Vivemos uma cultura em que, muitas vezes, o trabalho é visto como um mal necessário visando à nossa sobrevivência, um estorvo que atrapalha a boa vida dos fins de semana. A criação, porém, apresenta o trabalho como um ato digno modelado por Deus, e precisamos afirmar essa dignidade na nossa cultura, em que, historicamente, “quem trabalha é escravo, mas patrão folga”. Em nossa realidade, isso significa que “colarinho branco” não trabalha, pois isso é coisa de pobre. O relato da criação nos diz que o trabalho é não somente digno, mas para todos; e pobres são os que não têm o privilégio de experimentar o seu valor e a sua dignidade.
O segundo aspecto a destacar é que o trabalho é uma construção, e uma construção coletiva. O trabalho de um não precisa desconstruir o trabalho do antecessor nem desmerecer o que já foi feito. É significativo ver como, muitas vezes, um profissional precisa desmerecer o trabalho de seu antecessor. O marceneiro anterior era um desastre, o pintor de ontem, um burro, e o pastor antecessor, um ignorante, para citar apenas uns poucos exemplos desta nossa necessidade de nos afirmar menosprezando o profissional anterior, quando na realidade precisamos tanto do trabalho do “dia anterior” como do que vem no dia seguinte. É bonito ver como há, no relato da criação, um processo de construção. Quando um novo dia de trabalho desponta, é o que foi feito no dia anterior que oferece a base de sustentação para o que se fará no novo dia. E quando a criação vai chegando ao seu ápice, vê-se Deus passando o bastão do gerenciamento da natureza para a sua própria criação, como a lhes dizer: “Cuidem do que eu fiz como se eu pessoalmente fosse fazê-lo. E façam isso coletivamente!”. O texto bíblico expressa isso de forma contundente: “Deus os abençoou, e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra’” (Gn 1.28).
E assim o relato continua, num convite para uma participação coletiva na construção de uma cidadania e uma coletividade em que Deus é reconhecido, o outro é valorizado e a natureza é cuidada com gratidão por tudo que recebemos graciosamente das mãos de Deus.
E quando, no final do sexto dia, Deus contempla toda a sua criação, ele celebra, sorri e descansa. Mas isso é assunto para a próxima edição.
Valdir Steuernagel é teólogo sênior da Visão Mundial Internacional. Pastor luterano, é um dos coordenadores da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e um dos diretores da Aliança Evangélica Mundial e do Movimento de Lausanne.


domingo, 11 de agosto de 2013

ORAÇÕES PÓS-GUERRA

Orações pós-guerra | Ultimatoonline | Editora Ultimato

As gerações mais antigas de evangélicos certamente se lembram da “Semana Universal de Oração”, sempre realizada na primeira semana do ano. Era um movimento que as igrejas no Brasil realizavam em conjunto ou em cada congregação, acompanhando um programa pré-estabelecido a partir de uma agenda internacional.

Na edição de 4 de junho de 1920 do jornal carioca “O Paiz”, na seção ”Religião – Culto Evangélico”, encontramos a agenda de oração da Semana Universal de Oração daquele ano, proposta pela Aliança Evangélica Mundial. Cada dia trazia uma pauta de ações de graças, confissões e petições, com temáticas que demonstravam a conjuntura histórica mais voltada à igreja europeia, saída da Primeira Guerra Mundial e angustiada pelo fracasso da “cristandade”. Vozes como a de Karl Barth se levantaram refletindo teologicamente a crise, revisitando a ortodoxia e traduzindo o evangelho do Reino para a sociedade de sua época.

As ações de graças eram pelo fim da guerra (1914-1917), pela assinatura do Tratado de Paz e pela fundação da Liga das Nações. Reconhecia-se nova aspiração de fraternidade entre as nações e os homens, mas esta só seria possível pelo Evangelho de Jesus Cristo e pelo advento do seu Reino. A gratidão também era voltada para o sentimento mais aguçado dos cristãos pela unidade da igreja diante da vontade do Pai e da oração do Filho (Jo 17.20,21). Por fim, graças eram dadas pelas missões entre as diferentes categorias de “outros” considerados fora do cristianismo: os muçulmanos, os pagãos, os indígenas e os judeus.

O contraste da confissão estava no reconhecimento da fé vacilante em Deus e em Jesus Cristo por causa das lutas e das divisões na igreja. Como resultado, havia o desprezo pelo testemunho pessoal do Evangelho no poder do Espírito, de uma igreja que havia sucumbido ao espírito materialista e egoísta, cega ante os desígnios de Deus, apática moralmente e esquecida do seu compromisso dominical, da Palavra e dos mandamentos.

Daí o conjunto das petições que apontavam para uma nova postura da igreja. Eram temas destas súplicas: as lideranças e seus esforços pela unidade; a Liga das Nações e a paz entre elas; a justiça, a liberdade e a verdade entre os povos; o profundo respeito mútuo entre patrões e empregados; o fim da luta industrial e do espírito de ambição; uma igreja cheia do espírito evangelístico; os “novos apóstolos, profetas, evangelistas e instrutores cheios do Espírito Santo”; os missionários e as sociedades missionárias.

Os temas ainda traziam a necessidade de visão mais clara do trabalho missionário e da coragem de pregar o Evangelho em todo o mundo. Os judeus e Israel tinham um lugar especial nas intercessões, assim como a santidade do matrimônio, os professores, os pais, a mocidade e os idosos. E, por fim, os pedidos eram “para que a consciência moral da igreja se desenvolva, e para que todos os seus membros sejam mais verdadeiros e mais corajosos no seu testemunho e no seu trabalho de perfeição social”.

Esta pauta, embora distante da realidade das igrejas brasileiras em alguns pontos, as inseria na perspectiva de que Deus agia no seu tempo. Uma pauta universal, social, política e econômica, ao mesmo tempo eclesial e missionária. Ela poderia ter incorporado temas como a necessidade de cidadania, a violência às mulheres, aos negros e às crianças, num Brasil profundamente desigual do início do século 20.

Estes movimentos de unidade foram cíclicos no protestantismo ocidental. Eles geralmente foram reações ao divisionismo escandaloso herdado das guerras religiosas e do denominacionalismo do período pós Reforma. Eles se voltaram para a questão da missão da igreja no mundo e recolocaram a cruz e a ressurreição no centro da vida em comunhão, acima das diferenças.

A oração de Jesus em João 17 se impõe também à nossa geração que precisa se unir em torno de uma agenda universal de oração a partir do Brasil e da América Latina.

Fontes:
Jornal O PAIZ – 4 de junho de 1920. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
LATOURETTE, K. S. Historia del cristianismo. Trad. Jaime C. Quarles y Lemuel C. Quarles. 3 ed. Casa Bautista de Publicaciones: 1977.