Deus trabalha com ritmo e graça
Sou um homem das letras lineares procurando entrar no universo das letras que dançam a poesia da vida. Aliás, as letras lineares parecem dançar bem com as letras curvas da poesia e assim enriquecem a vida e a nossa compreensão dela. O relato da criação, para o qual estamos olhando nesta série de artigos, só vem comprovar isso. Já o li tantas vezes, mas muito cativo da letra, sem perceber a poesia a dançar neste belíssimo retrato de Deus com a sua criação.
O autor deste relato é também um poeta. Um artista das letras a nos reservar contínuas surpresas, que se revelam à medida que a criação acontece. Do início ao fim deste primeiro relato (Gn 1.1–2.4), vê-se Deus intervindo numa realidade de caos com sua palavra criadora: “E disse Deus”. E, assim, palavra após palavra e dia após dia, a criação vai ganhando forma diante dos nossos olhos, num verdadeiro espetáculo de harmonia, ordem e complementação. De fato, precisamos mais do que meras letras para discernir o surgimento deste espetáculo que acaba modelando diante de nós um jeito de viver e de estabelecer prioridades, equilíbrio e saúde em nossa própria vida. Vamos olhar mais de perto e destacar um dos aspectos desta intervenção de Deus na realidade.
Deus trabalha!
A cada dia, no decorrer de todo o relato, Deus vai se relacionando de forma criadora e criativa com a realidade, num verdadeiro crescendo. Nos primeiros dias ele trabalha no espaço. Cria a luz para fazer frente às trevas que tudo ocupam, separa a água do firmamento e estabelece divisão entre a terra e a própria água. Assim que a terra emerge, surgem ervas, plantas e árvores e a fertilidade do espaço criado brota com vigor e beleza. Num segundo momento, surgem os mais variados tipos de animais, alcançando seu momento culminante com a criação do homem e da mulher. Cada dia tem sua peculiaridade e todos os dias são cheios de uma atividade transformadora e criadora. No entanto, tudo parece estar marcado por um ritmo tranquilo e fecundo, em que o trabalho de um dia contribui e estabelece a base para o trabalho do outro dia; e assim se constrói um todo harmônico e pronto para uma continuidade procriadora. Cada dia de trabalho é marcado pela “tarde” e pela “manhã”, e assim os dias vão se sucedendo sem que um dia anule o trabalho do dia anterior nem atropele a atividade do dia seguinte. Deus trabalha com ritmo, integração e promoção de vida.
Ao observar esse Deus que trabalha, há dois aspectos aos quais vale a pena nos atentar. Em primeiro lugar, ele nos ensina que o trabalho é bom e digno. Ou, em linguagem figurada, a segunda-feira é boa, e não simplesmente é o dia mais distante do próximo final de semana. Vivemos uma cultura em que, muitas vezes, o trabalho é visto como um mal necessário visando à nossa sobrevivência, um estorvo que atrapalha a boa vida dos fins de semana. A criação, porém, apresenta o trabalho como um ato digno modelado por Deus, e precisamos afirmar essa dignidade na nossa cultura, em que, historicamente, “quem trabalha é escravo, mas patrão folga”. Em nossa realidade, isso significa que “colarinho branco” não trabalha, pois isso é coisa de pobre. O relato da criação nos diz que o trabalho é não somente digno, mas para todos; e pobres são os que não têm o privilégio de experimentar o seu valor e a sua dignidade.
O segundo aspecto a destacar é que o trabalho é uma construção, e uma construção coletiva. O trabalho de um não precisa desconstruir o trabalho do antecessor nem desmerecer o que já foi feito. É significativo ver como, muitas vezes, um profissional precisa desmerecer o trabalho de seu antecessor. O marceneiro anterior era um desastre, o pintor de ontem, um burro, e o pastor antecessor, um ignorante, para citar apenas uns poucos exemplos desta nossa necessidade de nos afirmar menosprezando o profissional anterior, quando na realidade precisamos tanto do trabalho do “dia anterior” como do que vem no dia seguinte. É bonito ver como há, no relato da criação, um processo de construção. Quando um novo dia de trabalho desponta, é o que foi feito no dia anterior que oferece a base de sustentação para o que se fará no novo dia. E quando a criação vai chegando ao seu ápice, vê-se Deus passando o bastão do gerenciamento da natureza para a sua própria criação, como a lhes dizer: “Cuidem do que eu fiz como se eu pessoalmente fosse fazê-lo. E façam isso coletivamente!”. O texto bíblico expressa isso de forma contundente: “Deus os abençoou, e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra’” (Gn 1.28).
E assim o relato continua, num convite para uma participação coletiva na construção de uma cidadania e uma coletividade em que Deus é reconhecido, o outro é valorizado e a natureza é cuidada com gratidão por tudo que recebemos graciosamente das mãos de Deus.
E quando, no final do sexto dia, Deus contempla toda a sua criação, ele celebra, sorri e descansa. Mas isso é assunto para a próxima edição.
Valdir Steuernagel é teólogo sênior da Visão Mundial Internacional. Pastor luterano, é um dos coordenadores da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e um dos diretores da Aliança Evangélica Mundial e do Movimento de Lausanne.
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