Carlos Caldas

A edição número 2.003 da revista
Isto É
(20/03/2008) trouxe como matéria de capa um tema, no mínimo, curioso e
instigante: “terapia de vidas passadas” (doravante, TVP). Este assunto é
de especial interesse no Brasil, apontado por estudiosos do fenômeno
religioso como o maior país espírita do mundo. A reportagem apresenta
vários relatos de supostas curas de traumas e dores que só aconteceram
depois que os pacientes se submeteram ao polêmico tratamento.
Tratamento?
Profissionais da área
psi (psiquiatras,
psicólogos, psicoterapeutas e psicanalistas) em geral discordam
veementemente de tal possibilidade. Todavia, alguns psicólogos dizem ser
possível uma pessoa ter hoje um problema cuja causa esteja em uma
suposta vida anterior. Seguindo esta linha de raciocínio, a cura só será
possível se a pessoa descobrir o que aconteceu no seu passado, anterior
à sua vida consciente hoje. A Sociedade Brasileira de Terapia de Vidas
Passadas realiza congressos sobre a temática. No entanto, há que se
destacar que o Conselho Federal de Psicologia, órgão oficial de
reconhecimento de atividades na área, não reconhece a técnica. De fato,
não há evidência científica segura que comprove a suposta eficiência da
chamada TVP.
É compreensível que pessoas em sofrimento apelem
para tratamentos alternativos em busca de solução para seus problemas e
dilemas. O problema é apelar para algo que poderá complicar ainda mais a
situação. É o caso de quem recorre à TVP.
Segundo os
testemunhos de supostas curas, as sessões de TVP são emocionalmente
muito intensas. A pessoa é total ou parcialmente hipnotizada, de acordo
com técnicas especiais de hipnose. Em estado inconsciente, poderá
chorar, rir ou gritar. Invariavelmente, volta à consciência com relatos
surpreendentes de uma outra vida supostamente vivida no passado. Mesmo
que tais relatos sejam detalhados, isso não prova de maneira conclusiva
que a pessoa tenha vivido aquela outra vida.
Por mais que os
defensores da TVP queiram alegar neutralidade religiosa, dizendo que se
trata de procedimento meramente científico, não há como separá-lo da
crença religiosa espírita. O espiritismo kardecista e algumas das
grandes tradições religiosas orientais, como o hinduísmo e setores do
budismo, são reencarnacionistas, ou seja, acreditam na idéia de
reencarnação. A TVP caminha nessa direção. Este é um caminho perigoso
para quem quer resolver seus problemas, taras ou traumas; em vez de
curar, pode complicar ainda mais a situação. Não é difícil entender a
razão: imaginemos o senhor X. Se ele é uma pessoa que acredita na tese
reencarnacionista, ele não é ele mesmo, mas sim alguém que teria vivido
antes. Digamos que o senhor X de hoje já foi na verdade o senhor Y
ontem. Hoje X vai ser recompensado ou castigado conforme o bem ou o mal
que Y teria praticado em uma vida anterior. Só que Y por sua vez é a
reencarnação de alguém que teria vivido em um período ainda mais remoto,
digamos, a senhora Z. Mas Z também não é Z... E assim vamos
retrocedendo cada vez mais no tempo,
ad infinitum. Como X vai
se curar de um trauma recorrendo a um tratamento na base da TVP, se Y,
de quem ele supostamente seria reencarnação, também tinha seus problemas
dos quais precisava se tratar? A conclusão é inevitável: a crença na
tese da reencarnação tem o potencial de criar confusões mentais que
podem gerar graves problemas de natureza psicológica e emocional. Não é
sem razão que Machado de Assis, com o brilhantismo que lhe era tão
característico, tenha escrito por cerca de trinta anos (1865–1896)
diversas crônicas com críticas pesadas ao espiritismo, que começava a se
inserir na sociedade carioca de então. No livro
Parapsicologia, Espiritismo e Psicopatologia,
o psiquiatra Ronald Scott Bruno defende a idéia de que o espiritismo,
por alguns motivos já mencionados, é fator potencialmente gerador de
psicopatologias, isto é, transtornos e disfunções mentais. As ciências
psi serão muito mais úteis se ajudarem as pessoas a descobrirem as
verdadeiras causas dos seus traumas, fobias e esquisitices, com
sobriedade, sem apelar para elementos fantásticos como a TVP. Aqui vale a
pena reproduzir um trecho da citada reportagem da revista
Isto É:
Na
opinião do presidente do Conselho Federal de Psicologia, Humberto
Verona, a cura acontece devido à sensação de conforto pelo fato de o
paciente se identificar com o terapeuta. “Elas apenas encontraram no
psicólogo uma compatibilidade de crenças que facilitou o processo
terapêutico”, afirma. A psiquiatra Marli Piva acrescenta: “A pessoa já
se sente aliviada só de achar uma explicação para o seu problema”, diz
ela.
Para Gildo Angelotti, diretor-executivo do Instituto de
Neurociência e Comportamento, de São Paulo, as vivências relatadas pelos
pacientes surgem de memórias inativas que registram imagens de filmes,
sons, histórias de livros e tudo que é percebido pelo indivíduo ao longo
da vida. “É como um sonho. Quando a pessoa está dormindo, os sentidos
são pouco requisitados e sobra mais espaço para o resgate destes
registros históricos. Mas a reunião destes elementos vem da mente do
próprio indivíduo, não de outras vidas.” Na opinião dele, a TVP chega a
ser arriscada aos pacientes psicóticos ou esquizofrênicos, que podem ter
uma reação violenta a partir das revelações ou ficarem obcecados em
encontrar nesta vida as pessoas do passado.
Como se vê, não há
evidência científica que aponte para a possibilidade de se tratar de uma
vida passada. E a teologia cristã, como vê a questão? O cristianismo,
herdeiro do judaísmo, rejeita a idéia de reencarnação. As Escrituras
Sagradas não dão base para se pensar assim. Uma antropologia que admite
as possibilidades de reencarnação e de tratamento de problemas
supostamente acontecidos em uma vida pregressa é, no mínimo, confusa.
Afinal, ninguém é ninguém. Não há idéia de personalidade. Não é possível
se falar de identidade.
A antropologia bíblica, em contraste,
aponta para outra direção, totalmente diferente: o ser humano, “imagem e
semelhança de Deus” (Gn 1.26-27), é único e, portanto, tem valor
inestimável. A Bíblia diz que “aos homens está ordenado morrerem uma só
vez, vindo, depois disto, o juízo” (Hb 9.27). Há quem veja a mensagem
deste versículo como amedrontadora, pois fala de juízo. Mas a força do
texto não está em ser assustador. Antes, indica de modo maravilhoso o
valor da existência humana. Biblicamente, cada pessoa tem direito a uma
identidade. A pessoa é quem é, não a reencarnação de alguém que viveu no
passado, que por sua vez é a reencarnação de alguém que viveu ainda
antes.
A vida apresenta situações difíceis para todos,
provenientes da injustiça que os homens cometem contra seus semelhantes
(C. S. Lewis, em
O Problema do Sofrimento, afirma que 80% do
sofrimento do ser humano é provocado pelo próprio ser humano) e de
fatores que são conseqüência do pecado — afastamento de Deus. Bem
afirmou o sábio do passado, ao observar como as pessoas vivem: “Eis o
que tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em
muitas astúcias” (Ec 7.29). Em vista disso, é importante procurar
soluções para as crises, mas por meios de seriedade científica
comprovada. Como cristãos, cremos que o progresso da ciência é dom de
Deus para a humanidade. É o que a tradição teológica reformada chama de
“graça comum” — bênçãos da parte do Deus, que faz com que o sol nasça
sobre maus e bons e que a chuva caia sobre justos e injustos (cf. Mt
5.45). Não é este o caso da TVP. Quem se submete a este tipo de
tratamento pode, conforme apontado por alguns psicólogos, encontrar, na
melhor das hipóteses, alívio temporário e ilusório. Felizmente, há
esforços sérios na área da psicologia que conjugam técnicas e
conhecimentos cientificamente comprovados com a mensagem bíblica da
graça, do amor e da misericórdia de Deus. O Corpo de Psicólogos e
Psiquiatras Cristãos (CPPC) que o diga!
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Carlos Caldas
é professor na Escola Superior de Teologia e Coordenador do Programa de
Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana
Mackenzie, em São Paulo.