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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

DEUS NO INFERNO DE CADA DIA


“E se esse mundo for o inferno de outro planeta?”. A frase é de Aldous Huxley. No filme “The Sunset Limited”, White, um professor que ia jogar-se nos trilhos do metrô do Harlem, quer escapar do inferno que é este mundo, mas é salvo a contragosto por um ex-presidiário, pregador evangélico. Travam um diálogo intenso, no precário quarto do cortiço onde mora o pregador: Jackson: – “Você diz que quer morrer, e que não se importa com nada. Você já leu a Bíblia, entre os milhares de livros que você diz ter lido? Confio em suas palavras, sei que elas chegarão até ao seu coração. Estou lhe falando porque acredito que elas são o caminho para salvar”, afirmando a concepção evangélica comum. 
White: “Você perde seu tempo. Não desistirei de morrer. As coisas em que acredito, por serem verdadeiras, são muito frágeis”. O pregador retruca: – “Este é um mundo de escuridão, professor”. White continua: – “Eu admito, mas saber disso não me liberta da escuridão. De fato, não tenho escolha. Estou lhe dizendo o que compreendo sobre isso. Anseio pelo mundo escuro, desejo a escuridão. Oro pela morte verdadeira, definitiva”.  Prosseguindo: – “Se eu achasse que no além encontraria com um monte de pessoas incômodas que conheci na vida, eu não sei o que faria. Seria o maior dos pesadelos. Eu quero que os mortos permaneçam mortos para sempre. Quero ser um deles. Desejo a escuridão, a solidão, o silêncio e a paz para sempre. Não considero o meu estado de espírito como uma visão pessimista do mundo. Vejo-o como ele é. Se as pessoas também pudessem ver a vida como ela é, sem ilusões, sem sonhos inúteis, escolheriam morrer o mais rápido possível”. 
O diálogo continua, a questão da salvação permeia a conversa, e White vai construindo o “grand finale”: – “Eu não acredito em Deus, você acha isso possível? Os que crêem parecem não ouvir o clamor dos que sofrem. Ou os gemidos de dor e coletiva lhes parece o som mais agradável aos ouvidos. Se estes pudessem ser consequentes, em suas preces mandariam queimar aqueles que condenam numa fogueira, que se queimassem tanto a ponto de só restarem umas poucas cinzas nos escombros do universo”. 
Por fim, em golpe mortal, diante do pregador perplexo e sem respostas: – “Em suas mãos há sempre um machado pronto para cortar a árvore da alegria. Árvore da vida. Vocês não acreditam no prazer e na alegria. Toda estrada que vocês trilham termina na morte de cada amizade, de cada amor. Aqui está a comunidade humana da qual todos somos sócios. O tormento humano, a perda, a traição, a dor, a idade, a velhice, as doenças hediondas, a insanidade geral,  ignoradas por vocês, levam-me a uma conclusão. O que escolheram para salvar perecerá para sempre na obscuridade. Não há salvação”. 
Certamente, não estamos falando da “depravação total da humanidade”, em mais um infeliz momento de Calvino. Karl Barth, de certo modo, repara a doutrina rigorosa da perdição de todos os homens e mulheres, ampliando o agir de Deus muito além do julgamento e condenação ao inferno, quando discute a humanidade de Deus, alcançando este mesmo mundo como alguém que sofre, que chora, que anda em estradas sujeitas aos salteadores, que acaba torturado e assassinado pelos poderes deste mundo. Não é o homem que vai a Deus para ser salvo, mas Deus que vem ao homem para salvá-lo. Jesus foi ressuscitado por Deus, diz o Novo Testamento. Rompido o tabu literalista, ou fundamentalista, a respeito da revelação adocionista, talvez precisemos ampliar nossos conhecimentos indo além do mistério. 
O problema incômodo, porém teórico, sobre a morte, o inferno e a salvação, não pode ficar restrito a repetições doutrinais ou catequéticas. São piores que o silêncio – também indesejável –, diria o catalão Andrés Queiruga. Como o personagem do roteirista Cormac McCarthy, em “The Sunset Limited”, aqueles que não discutem, ou ignoram, deixam-nos expostos ao vazio. O vazio não nos interessa. A fé não se move no vácuo. A luz é preferível à escuridão e a solidão, ausência de comunhão, nas quais o professor White quer mergulhar para sempre.
Teriam perguntado a José Saramago, Nobel de Literatura: Como podem homens sem Deus ser bons? Ele respondeu: – “Como podem homens com Deus ser tão maus?” Os temas mais diversos aparecem no diálogo observado acima, como a inexistência do amor real, assim como a abstração e substituição narcisista dos significados do amor; como a palavra sobre uma salvação impossível, porque “salvacionistas”, em catarse pessoal, ignoram a vida real das pessoas em sua concretude.
A revelação de Deus, ao contrário, não nasce de nenhuma doutrina ou escritura. Porque são elas que nos dizem o que Deus quereria dizer, e não do misterioso agir de Deus. Mas a inspiração vem de dentro da existência humana, é um dar-se conta de que Deus está atualizando a fé necessária para a salvação da humanidade. Deus está nos procurando e dando-se a conhecer através da realidade humana, onde há injustiças, abusos e desigualdades. Deus está na realidade de um mundo que sofre, buscando nos convencer de seu agir em favor do oprimido e do desesperado, como disse Richard Shaull. 
O uso do poder de julgar, aplicado aos que não compartilham de pregações abstratas; o medo do inferno e o horror do próximo; a ausência de indignação sobre as grandes injustiças misturam-se com outras ênfases, um modo primitivo, um inferno geográfico, uma cosmologia simplista que vê o mundo sem história cultural ou geológica, social, política, sem inovações cúlticas e teológicas, negando a fé histórica.  
A simbologia da revelação de Deus dentro e através da realidade humana confronta-se com questões dominadas por valores de sobrevivência econômica, misturada com a religião que mantém esticado o cabresto e prende o antolho que impede o fiel de ver a realidade. À instalação da liberdade, em níveis de consciência e de vida política, a fé transcendente descendo à temporalidade; à violência das sociedades autoritárias; à falta de pão, ao crime diário e ao sofrimento desnecessário; ao sangue dos inocentes derramado sem sentido, não são problemas de pessoas desfocadas quanto à revelação de Jesus Cristo diante da dignidade das etnias, dos povos, dos oprimidos, dos discriminados, dos perseguidos por causa da consciência indignada, insurgentes, diante dos abismos das desigualdades, das injustiças, dos abusos contra crianças, mulheres, idosos, deficientes e doentes, em quaisquer lugares? 
Em primeiro lugar, cremos, Deus continua agindo para salvar o homem de si mesmo. Através de Jesus de Nazaré, conhecemos “seu” Pai, a quem chamou de “Paínho”, “Abbá”, que cria por amor, repele o mal e nem sequer admite sua prática, e que, situando-se do nosso lado, luta incansavelmente para salvar-nos de nós mesmos. Como o pai da parábola, não nos submete ao castigo, mas vai às nossas encruzilhadas, e às porteiras da vida com o coração triste por nossas decisões em esbanjar as riquezas da vida, mas cheio de esperança que retornemos ao lugar da salvação.
É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).



terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A vocação dos discípulos e o Ministério da Oração

A vocação dos discípulos e o ministério da oração

Uma das coisas que aprendi há algum tempo é que o discípulo dificilmente vai além do seu mestre. Aliás, Jesus mesmo advertiu seus discípulos quando lhes lavou os pés: “Nenhum escravo é maior do que o seu senhor” (Jo 13.16). Ele não lhes pediu nada que ele próprio não tivesse feito ou vivido. Estava sempre ensinando a boa nova às multidões, curando os enfermos e libertando as pessoas da possessão demoníaca. E é isso que ele requer dos seus seguidores. Queremos neste artigo olhar para a vida de oração de Jesus e para o seu convite aos discípulos para que façam o mesmo.


Nos Evangelhos, a vida de oração de Jesus é retratada de diferentes maneiras e em diferentes situações. Mas todas têm em comum o fato de que ele orava e ensinava os discípulos a orar. Nos momentos mais importantes da sua vida, parece que uma janela se abre e vislumbramos uma intensa intimidade entre ele e o Pai. No batismo, a palavra do Pai o alcança com a amorosa afirmação: “Tu és o meu filho amado; em ti me agrado” (Mc 1.11). Antes da crucificação, é ele quem procura o Pai e, com a alma angustiada, pede-lhe que, se possível, poupe-o do cálice da morte (Mc 14.36).


A escolha dos discípulos parece ter sido um desses momentos centrais na vida de Jesus. Conta o evangelista Lucas que antes de escolhê-los ele “saiu para o monte “a fim de orar”, e “passou a noite orando a Deus”. Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze deles, a quem também designou apóstolos” (Lc 6.12-13).


A oração era mais do que algo “funcional” na vida de Jesus; era uma expressão de profunda intimidade com o Pai. A oração é o espaço nobre no qual se nutre a relação entre Pai e Filho. É dessa relação de intimidade entre os dois que brota a afirmação de pertencimento (batismo), a oferta da sua entrega sacrificial (crucificação) e a própria escolha dos discípulos. Segundo o comentarista Howard Marshall, com a oração preparatória e a designação apostólica dos doze, Jesus dá um passo importante na fundação da igreja. Os discípulos são chamados para a oração e a igreja nasce pela oração. O Evangelho de João torna isso ainda mais explícito e amplo ao dizer que Jesus orou, não apenas pelos doze, mas também por todos os que viessem a crer nele. Assim, ele orou por você e por mim em nosso desejo e esforço por segui-lo: “Minha oração não é apenas por eles, diz Jesus. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles” (Jo 17.20).


Desde tempos imemoráveis, diz Ole Hallesby, a oração “foi considerada o fôlego da alma”. Assim como o ar nos envolve e temos livre acesso a ele -- dele dependemos e nunca o possuímos, mas somos possuídos por ele -- a oração é o fôlego que nos é dado por Deus, que nos envolve e alimenta a nossa vida. A oração é a graça divina que alimenta o pulmão da nossa relação vital com Deus, do sentido da nossa existência e do cultivo da nossa vida comunitária e missional.


A oração é o alimento da nossa relação com Deus -- Pai, Filho e Espírito Santo. Quando Jesus ora, ele se alimenta da Trindade e alimenta a Trindade. E quando a Trindade se reúne, o amor flui, a salvação é desenhada e a eternidade, gestada. Quando oramos, somos batizados no amor, tornamo-nos partícipes do plano de salvação e somos agraciados com o gosto da eternidade que passa a balizar os nossos caminhos de obediência e os nossos sonhos para o amanhã. Oramos porque simplesmente não há outra maneira de viver a nossa fé.


O caminho da oração não é óbvio nem fácil. Os discípulos nos deixam entrever as dificuldades e os desafios inerentes a uma vida de oração. Quando, no Getsêmani, diante da morte iminente, Jesus lhes pede que vigiem com ele em oração, os discípulos dormem (Mc 14.32-37). E quando eles tentam, em vão, expulsar os demônios de um menino possesso, Jesus lhes diz que isso só seria possível pela oração (Mc 9.14-29).


Se a oração é o reconhecimento da nossa dependência de Deus, a sua ausência é a manifestação da nossa insuficiência e pseudossuficiência. Enquanto a oração é o atestado da suficiente graça de Deus, a ausência dela é o atestado da nossa fraqueza e limitação. Assim, é necessário não apenas que oremos, mas também que Deus nos ensine a orar. Eis um grande mistério: o mesmo Deus que nos convoca a orar sem cessar afirma que só podemos orar quando o Espírito nos capacita e conclama a fazê-lo. E mais belo ainda se faz o mistério quando lemos no livro de Isaías (65.24), na descrição dos novos céus e da nova terra que, “ainda antes de clamarmos”, Deus responderá e “antes de falarmos” Deus já nos terá ouvido! Graças a Deus. Ele não apenas nos exorta a orar, mas também ora por nós. Ele não apenas nos convoca a orar, mas também nos ensina a orar:


Quando vocês orarem, digam:
Pai!
Santificado seja o teu nome.
Venha o teu Reino.
Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano.
Perdoa-nos os nossos pecados,
Pois também perdoamos a todos os que nos devem,
E não nos deixes cair em tentação.
Lucas 11.2-4


Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.




editora ultimato - edição 330 www.ultimato.com.br

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

SERENA CONFIANÇA

Nós não podemos decidir a respeito de como morrer, mas podemos decidir sobre como viver.   Robin Sharma

A mais eficiente e poderosa confiança é a serena confiança. Ela não se vangloria nem é arrogante. A serena confiança não se abala com a zombaria e a crítica daqueles que com esses atos só deixam transparecer e manifestar suas próprias inseguranças. A serena confiança faz aquilo que é correto fazer, não se importando com o que os outros pensem.
 
A serena confiança é edificada pela substância, e não é manifesta para exibições emocionais. Ela é genuína e poderosa. A serena confiança não está preocupada com aparências. Ela simplesmente realiza e concretiza os alvos propostos. A serena confiança nem sempre pode ser vista, e normalmente você nem cogita sobre ela. Contudo ela trabalha incansavelmente por trás das cortinas, lhe trazendo coisas de precioso significado, e valor eterno.
 
A serena confiança serena transcende a limitada confiança humana. Ela é divina; tem sua raiz e origem no relacionamento com o Pai. Ela se sobrepõe ao barulho, à agitação e às aparentes adversidades que surgem em meio ao caminho. A serena confiança pode ser a sua realidade, quando seus olhos estiverem fixados em Deus e não nas suas circunstâncias.
Nélio DaSilva

Para Meditação:
Os que confiam no Senhor são como o monte Sião, que não se abala, firme para sempre.  Salmos 125:1