terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Pegou, abusou e descartou

revista / edicao 337 / pegou-abusou-e-descartou


O que houve com aquele feminismo que fazia campanhas pelo direito da mulher sobre a sua autonomia e a integridade de seu corpo? Aquele feminismo que protegia mulheres casadas e solteiras contra assédio sexual e estupro? Aquele feminismo que chegava a preconizar o direito da esposa de recusar-se a fazer sexo com o marido? Teria ido por água abaixo? As mulheres mudaram de ideia ou foram vencidas pela cultura machista? Não dá para entender por que elas dançam e se requebram ao som de “Ai se eu te pego”, de Michel Teló. É justo e decente que uma mulher seja como a gilete que o rapaz pega, usa  e depois joga fora? Todo mundo precisa ouvir a seguinte história:
 
Era uma vez um príncipe que se apaixonou por uma princesa. Não era uma paixão razoável. Antes, o príncipe só amava o corpo da princesa. Afinal, ela era muito bonita.
 
O problema é que o príncipe e a princesa eram filhos do mesmo pai, mas não da mesma mãe. Ele e ela eram meio-irmãos. E a lei não permitia que eles se casassem — embora o que o rapaz desejasse não fosse necessariamente casar-se. O que o príncipe queria era ir para a cama com a princesa. O rapaz ficou angustiado a ponto de adoecer porque não podia “pegar” a mocinha sem mais nem menos. Porém ele tinha um cúmplice muito astuto, que era seu amigo e primo (que era também primo da princesa). Ele segredou ao príncipe: “Vá para a cama e finja estar doente. Quando seu pai, o rei, vier visitá-lo, peça-lhe o favor de mandar a princesa vir ao seu apartamento e preparar algo para você comer. Diga-lhe que, por causa de sua doença, você perdeu a vontade de comer, senão aqueles bolos que só as mãos da princesa são capazes de preparar”.
 
Dito e feito. A princesa saiu de seus aposentos e com a maior inocência foi para os aposentos do seu meio-irmão. Preparou os bolos e mandou os empregados dele levar para o príncipe. Mas o rapaz choramingou e disse que só comeria bolo se a princesa fosse à sua cama e colocasse pedacinho por pedacinho em sua boca. Quando o príncipe ordenou que seus servos se retirassem, a princesa se assustou. Ele jogou as bandejas no chão e agarrou a moça. Ela tentou impedir o estupro e disse-lhe: “Não, meu irmão! Não me violente. Isso não se faz. Não faça essa loucura! Onde eu poria a cara depois de ser possuída desse jeito? Além disso, por ter me violado, você certamente cairia em desgraça. Se você de fato me ama, vamos seguir os trâmites normais”.
 
Foi tudo em vão. Como era mais forte que a irmã, o príncipe obrigou a princesa a deitar-se com ele. Depois de abusar da moça, o rapaz sentiu aversão por ela e foi duro e grosseiro: “Levante-se e saia!” A jovem tentou resistir: “Não, meu irmão! Por favor. Isso é pior do que o que você acabou de fazer comigo!”. Porém o brutamonte não quis saber, chamou o criado e ordenou: “Leve esta mulher embora e tranque a porta depois de sair”.
 
Por mais rude que seja, essa história é verdadeira. O nome do príncipe é Amnom e o da princesa, Tamar. O pai de ambos é o rei Davi. Porém a história não termina aqui. O crime de Amnom teve consequências trágicas, que estão registradas em 2 Samuel 13.1-39.

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