Friedrich Nietzsche
Nascido na antiga Prússia na metade do século 19 e filho de uma linhagem de pastores protestantes tanto por parte de pai quanto de mãe, Friedrich Nietzsche foi um implacável crítico do cristianismo e da religiosidade de seu tempo. É pena que, com a água suja do “cristianismo sem sal” que ele jogou fora, estava também a água limpa do “cristianismo com sal”. A professora Scarlett Marton, da Universidade de São Paulo, que fundou o Grupo de Estudos Nietzsche, acerta quando diz que o filósofo foi “um campo de batalha”. Ao morrer, no dia 25 de agosto de 1900, no início do século 20, pouco antes de completar 56 anos, o filósofo deixou para a humanidade, especialmente para a Europa, um legado anticristão que exerceu uma forte influência, alimentou a soberba humana e tentou diminuir a glória de Deus. Para verificar isso, basta ler os seguintes pronunciamentos de Nietzsche retirados de seu livro “O Anticristo”, escrito em 1888 e publicado seis anos depois (1894) e seis anos antes de sua morte:
1. Não se deve embelezar nem desculpar o cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra este tipo de homem superior, renegou todos os instintos fundamentais deste tipo e desses instintos destilou o mal, o negativo -- o homem forte como tipo censurável, como proscrito.
2. O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, incapaz, e transformou em um ideal a oposição aos instintos de conservação da vida saudável.
3. O cristianismo é conhecido como a religião da piedade. A piedade, porém, é deprimente, pois enfraquece as paixões revigorantes que aumentam a sensação de viver. O homem perde o poder quando é contagiado pelo sentimento de piedade e esta dissemina todo sofrimento.
4. Nada há de mais doentio, no meio de nossa insalubre modernidade, que a piedade cristã. É aí que é necessário sermos médicos, manejarmos o escalpelo [bisturi usado em dissecações]. Eis o que nos cabe, eis a nossa caridade, eis o que nos torna filósofos, a nós, os hiperbóreos.
5. A própria palavra “cristianismo” é já um equívoco -- no fundo só existiu um cristão, e esse morreu na cruz. O “Evangelho” morreu na cruz. Aquilo que desde então se chamou “Evangelho” era o contrário do que Cristo havia vivido: uma “má nova”, um “Dysangelium” [o contrário de boa notícia].
6. O cristianismo promete tudo, não cumpre nada.
7. O cristianismo é uma insurreição de tudo o que rasteja contra tudo quanto está elevado: o evangelho dos “pequenos” tornou-se cada vez menor...
Depois de mais de um século da morte do conturbado e infeliz Nietzsche (três vezes intentou contra a própria vida), depois de todas as guerras, todas as convulsões sociais (da extrema direita e da extrema esquerda) e todas as desgraças do século 20 (considerado “o mais violento da história humana” pelo escritor britânico William Golding) -- o cristianismo não morreu. Antes, tem crescido na América, África, Ásia (principalmente no país mais populoso do mundo) e sudeste da Europa. A preocupação atual é a reevangelização da Europa, o continente mais afetado pelo pensamento daquele que se diz o porta-voz do anticristo. Para os cristãos, isso não é novidade, pois o próprio Jesus declarou enfaticamente: “Essa é a pedra sobre a qual vou edificar minha igreja, uma igreja tão exuberante e tão cheia de energia que nem as portas do inferno serão capazes de obstruir seu avanço” (Mt 16.18).
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