segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Desmoralizados para sempre?



Cinquenta dias depois de ter experimentado um fracasso vergonhoso e imperdoável na ocasião mais imprópria possível (na madrugada da Sexta-feira da Paixão, logo após a crise pela qual Jesus passou no Getsêmani), Pedro se levantou, junto com os outros onze apóstolos, e em voz bem alta começou a pregar (At 2.14). Naquele mesmo dia quase 3 mil pessoas se juntaram ao minguado grupo de 120 discípulos (At 2.41). A essa altura, o apóstolo já havia sido restaurado plenamente pelo próprio Jesus Cristo (Jo 21.15-17). A tríplice declaração de amor de Pedro por Jesus e a tríplice comissão dada a ele por Jesus (“Tome conta das minhas ovelhas”) limparam não só a alma, mas também o nome de Pedro.
 
As três mulheres sem nome (a mulher samaritana, a mulher pecadora e a mulher adúltera) cometeram desvios graves, mas Jesus impediu que elas ficassem desmoralizadas para sempre, perdoando-as e concedendo-lhes a oportunidade de não continuar naquela vida de pecado.
 
Em sua meia-idade, o rei Davi pecou contra Deus, contra suas mulheres, contra o general do exército e sua esposa e contra o povo, mas não ficou desmoralizado para sempre. Por uns dez anos, sofreu calado e humildemente as consequências do escândalo que havia cometido, mas Deus não o destronou, nem o proibiu de compor novos salmos, e ele morreu bem velho “e respeitado” (1Cr 29.28, NTLH) ou “cheio de honras” (NBV).
 
A plena restauração de um irmão ou irmã que estão ou não à frente de um ministério não depende só dele e de Deus. Ele, arrependido e contrito, confessa a Deus o seu pecado, e Deus, misericordioso e longânimo, perdoa-o e restaura-o. Porém em geral a igreja não esquece, não perdoa, não abençoa e não deixa que a pessoa responsável pelo escândalo suba ao lugar onde antes estava, mesmo que com lágrimas e humildade tenha, diante de Deus, condições morais para galgar a antiga posição. O membro da igreja de Corinto que provocou um grande escândalo cometendo “uma imoralidade sexual tão grande que nem mesmo os pagãos seriam capazes de praticar” (1Co 5.1) -- depois de ser entregue a Satanás para que o seu corpo fosse destruído e o seu espírito, salvo (1Co 5.4-5) -- foi recebido outra vez pela mesma igreja (não por outra igreja ou denominação) e por ela perdoado e animado para que não ficasse para sempre tão triste que acabasse caindo em desespero (2Co 2.5-11).
 
Às vezes, quem promove o escândalo são os caçadores de escândalos, aqueles que levam o irmão surpreendido em pecado para o meio da multidão e proclamar em  manchetes de jornais, e não para um lugar reservado e recatado para orar com ele, chamá-lo ao arrependimento e garantir-lhe o perdão de Deus. Só o pecado dos hipócritas é que precisa vir à tona. Em benefício do reino de Deus, da igreja da qual o pecador é membro, das crianças e dos adolescentes, daqueles que estão em processo de conversão, da família do pecador e do próprio pecador -- se não se tratar de um escândalo público --, em muitos casos, não é necessário nem virtuoso divulgar o pecado alheio. Em alguns comportamentos extremos, o escândalo do irmão que peca é espalhado e muitas vezes aumentado por uma questão de maldade (inveja, ciúme, vingança). Aos olhos de Deus, esse escândalo é maior do que o primeiro.
Todos os cristãos deveriam confessar a potencialidade do pecado, tomar cuidado e admitir com humildade o que o filósofo alemão Goethe admitiu: “Não vejo falta cometida [por outra pessoa] que eu não pudesse ter cometido”.

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