segunda-feira, 18 de junho de 2012

A incomunidade global




Quinta, 30 de Junho de 2011 - 10:24hs


Divulgação Novolhar
Vivemos num mundo onde o individualismo está sendo levado ao extremo pelo desenvolvimento cada vez maior de tecnologias próprias ao isolamento das pessoas. Tecnologias que, de uma forma mercadológica enganosa, levam-nos a pensar que fazemos parte atuante de uma comunidade global. A televisão, a internet, o telefone celular nos dão a sensação de não estarmos sozinhos, quando, na verdade, estamos cada vez mais longe uns dos outros, cada vez mais reféns dos tecnorrelacionamentos da rede mundial de comunicação sem interlocutores.


Segundo o Instituto Datafolha, 55% dos brasileiros acessam a internet. Estamos permanentemente ligados ao notebook, ao ipad, ao smartphone. Todos nós temos pelo menos um blog, um twitter ou um e-mail que nos mantêm ligados diariamente ao fantástico mundo virtual das relações desprovidas de tato, de cheiro, de carne e de calor humano.


O deus do homem moderno, do consumidor passivo, é a energia elétrica. A vida atual depende intrinsecamente da eletricidade para continuar funcionando. Sem ela, é como se nos tirassem o ar dos pulmões.


A bíblia do homo consumidor é o Google. Quer conhecer melhor uma pessoa? O Google diz quem ela é. Quer saber o quê dar de presente de aniversário a alguém? O Google diz o que comprar. Não sabe mais quem você se tornou? Pergunte ao Google.


Nossos encontros reais são cada vez mais raros. Cada vez com menor duração. Cada vez mais sem sentido. Buscamos o outro no vazio das relações digitais. Contabilizamos nossas amizades pelo número de contatos do Fakebook (com “k” mesmo).


Nada mais fantasioso do que viver com nós mesmos, afastados do outro, da alteridade que nos apresenta verdadeiramente a nós mesmos. Nada mais sem sentido que nos sentirmos próximos de um coreano porque podemos escrever nossa opinião sobre seu peixinho de estimação num blog desatualizado.


A tecnologia está afastando pais e filhos. E para disfarçar o crescente vazio relacional familiar, aceitamos as afirmações sugeridas pelo Google, grosseiramente traduzidas, de que nossos filhos são mais cultos e inteligentes à medida que nos exigem ter em casa as mais novas tecnologias criadas no Vale do Silício.


Sem televisão, sem playstation, sem computador, como fazer para que as crianças não fiquem entediadas em casa? Já imaginaram o que seria de muitos pais se precisassem reaprender a conviver com seus filhos?


Sabemos mais sobre os mortos no tsunami do Japão do que sobre o câncer que está matando nosso vizinho ao lado. Aliás, nosso vizinho do lado foi nosso amigo de infância, e embora ainda vivamos todos fisicamente no mesmo bairro, só nos encontramos ocasionalmente em alguma comunidade bairrista do Orkut.


Claro que a internet tem utilidade. Muitas vezes, até reencontramos alguns amigos através dela. A melhor coisa que inventaram foi o celular com GPS para acompanhar os filhos quando crescem. Mas é preciso cuidado para não nos deixarmos hipnotizar com as falácias tecnológicas das pontocom.


Afinal, nem tudo está perdido. Ainda há leitores que respiram poesia, romance, aventura, e sempre haverá um blecaute que obrigue nossos semelhantes plugados a olhar para fora de suas telas de LCD. E não vamos deixar escapar a oportunidade de acender um fogo de chão e cevar um mate com uma boa prosa de fim de tarde ou alguma outra coisa que a gente goste de fazer verdadeiramente juntos. Porque eletrizantes mesmo são os relacionamentos humanos.


* Psicólogo/so-cionomista em Blumenau (SC)


Fonte: Claudemir Casarin

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