René Padilla
Na
edição anterior vimos que, segundo o testemunho dos Evangelhos
Sinóticos resumido em Mateus 4.23 e 9.35, a missão terrena de Jesus teve
como cenário preferencial a província da Galileia. Cabe agora
perguntar-nos que implicações essa concentração na região periférica da
nação judia de seu tempo tem para a missão da igreja. Em outras
palavras, cabe perguntar-nos se, em algum sentido, a localização
espacial da missão de Jesus Cristo provê o modelo para a localização
espacial da missão da igreja, a comunidade que foi chamada a prolongar
na história essa missão até a consumação dos séculos.
De
início, devemos esclarecer que a opção galileia de Jesus não significou
de maneira alguma indiferença às necessidades dos que não se
identificavam com as multidões que o seguiam na Galileia. Os Evangelhos
incluem narrações de seus encontros com pessoas que ostentavam poder
socioeconômico, político e, ou, religioso. É o caso dos cobradores de
impostos (empregados do Império Romano), dos saduceus, dos fariseus e
dos intérpretes da lei. Mais especificamente, temos o caso de Levi (Lc
5.27-31), de Simão (Lc 7.36-50), de Zaqueu (Lc 19.1-10), de Nicodemos
(Jo 3.1-10), que raramente são mencionados por nome. Estes casos, como
também o do centurião romano em Cafarnaum (Lc 7.1-10) e o do jovem rico
(Lc 18.18-23), dão base para afirmarmos que a opção galileia de Jesus
não significava a exclusão total de um setor da sociedade. Era, na
verdade, como dissemos anteriormente, a realização do propósito de Deus
para o Messias, tal como se vislumbra no Antigo Testamento: o de
estabelecer um reinado de paz e justiça, reconciliação e equidade.
Como
missão do reino de Deus inserida na história por Jesus Cristo, um dos
fundamentos da missão da igreja até a consumação dos séculos é o que
Jesus expressou em seu “manifesto” programático na sinagoga de Nazaré da
Galileia. Nela afirmou o cumprimento, em sua própria pessoa e obra, de
Isaías 61.1-2: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu
para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos
cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os
oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19).
O
anúncio das boas novas às multidões empobrecidas da província da
Galileia estava no coração da missão de Jesus. Quando João Batista
mandou seus discípulos lhe perguntarem: “És tu aquele que estava para
vir [o Messias] ou havemos de esperar outro?”, sua resposta foi: “Ide e
anunciai a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam,
os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são
ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho. E
bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Lc
7.22-23). O anúncio das boas novas aos pobres, por palavra e ação,
evidenciava que ele era de fato o Messias!
Orlando
Costas tem razão quando afirma: “Se, como vários livros do Novo
Testamento ensinam, a evangelização se dirige em primeiro lugar aos
pobres, aos despossuídos e aos oprimidos, e se eles são os que estão
mais habilitados a entender o significado do evangelho (ver Mt 11.25),
então a Galilea, como símbolo da periferia, deve ser entendida como
princípio universal em relação à teologia da evangelização. Assim, a
particularidade da periferia deve informar todo e cada contexto de
evangelização”. E Costas também tem razão ao julgar que, quando a
evangelização começa nos setores populares -- os deserdados da terra --,
demonstra com clareza que o evangelho de Jesus Cristo é poder de Deus
para restaurar a totalidade da vida humana e abre caminhos para a
liberdade, a justiça e a paz. Em contraste, acrescenta o autor, quando a
evangelização começa nos centros de poder, seus conteúdos geralmente
acabam sendo um acomodamento barato e fácil aos interesses dos poderosos
e dos ricos.
Traduzido por Wagner Guimarães
• C. René Padilla
é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da
Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de
O Que é Missão Integral?.
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