quinta-feira, 15 de março de 2012

Boas novas aos pobres


René Padilla
Na edição anterior vimos que, segundo o testemunho dos Evangelhos Sinóticos resumido em Mateus 4.23 e 9.35, a missão terrena de Jesus teve como cenário preferencial a província da Galileia. Cabe agora perguntar-nos que implicações essa concentração na região periférica da nação judia de seu tempo tem para a missão da igreja. Em outras palavras, cabe perguntar-nos se, em algum sentido, a localização espacial da missão de Jesus Cristo provê o modelo para a localização espacial da missão da igreja, a comunidade que foi chamada a prolongar na história essa missão até a consumação dos séculos. 
De início, devemos esclarecer que a opção galileia de Jesus não significou de maneira alguma indiferença às necessidades dos que não se identificavam com as multidões que o seguiam na Galileia. Os Evangelhos incluem narrações de seus encontros com pessoas que ostentavam poder socioeconômico, político e, ou, religioso. É o caso dos cobradores de impostos (empregados do Império Romano), dos saduceus, dos fariseus e dos intérpretes da lei. Mais especificamente, temos o caso de Levi (Lc 5.27-31), de Simão (Lc 7.36-50), de Zaqueu (Lc 19.1-10), de Nicodemos (Jo 3.1-10), que raramente são mencionados por nome. Estes casos, como também o do centurião romano em Cafarnaum (Lc 7.1-10) e o do jovem rico (Lc 18.18-23), dão base para afirmarmos que a opção galileia de Jesus não significava a exclusão total de um setor da sociedade. Era, na verdade, como dissemos anteriormente, a realização do propósito de Deus para o Messias, tal como se vislumbra no Antigo Testamento: o de estabelecer um reinado de paz e justiça, reconciliação e equidade. 
Como missão do reino de Deus inserida na história por Jesus Cristo, um dos fundamentos da missão da igreja até a consumação dos séculos é o que Jesus expressou em seu “manifesto” programático na sinagoga de Nazaré da Galileia. Nela afirmou o cumprimento, em sua própria pessoa e obra, de Isaías 61.1-2: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19). 
O anúncio das boas novas às multidões empobrecidas da província da Galileia estava no coração da missão de Jesus. Quando João Batista mandou seus discípulos lhe perguntarem: “És tu aquele que estava para vir [o Messias] ou havemos de esperar outro?”, sua resposta foi: “Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Lc 7.22-23). O anúncio das boas novas aos pobres, por palavra e ação, evidenciava que ele era de fato o Messias!
Orlando Costas tem razão quando afirma: “Se, como vários livros do Novo Testamento ensinam, a evangelização se dirige em primeiro lugar aos pobres, aos despossuídos e aos oprimidos, e se eles são os que estão mais habilitados a entender o significado do evangelho (ver Mt 11.25), então a Galilea, como símbolo da periferia, deve ser entendida como princípio universal em relação à teologia da evangelização. Assim, a particularidade da periferia deve informar todo e cada contexto de evangelização”. E Costas também tem razão ao julgar que, quando a evangelização começa nos setores populares -- os deserdados da terra --, demonstra com clareza que o evangelho de Jesus Cristo é poder de Deus para restaurar a totalidade da vida humana e abre caminhos para a liberdade, a justiça e a paz. Em contraste, acrescenta o autor, quando a evangelização começa nos centros de poder, seus conteúdos geralmente acabam sendo um acomodamento barato e fácil aos interesses dos poderosos e dos ricos.
Traduzido por Wagner Guimarães
• C. René Padilla é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de O Que é Missão Integral?.

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