Ser Pai...
por Carlinhos Veiga
Coelho Neto escreveu que “ser mãe é padecer no paraíso”. Uma frase poética que mostra dois lados opostos de uma maravilhosa lida: padecimento e satisfação. Mas, e ser pai?
Ser
pai é deter-se diante do mistério da vida e ousar participar dele. É
experimentar com sua esposa esse processo divino de gerar, de
fertilizar, de semear. Depois, regar, cuidar, dar atenção e sonhar. É
lançar a semente e colher, nove meses depois, o fruto desse amor, fruto
inquietantemente aguardado.
Ser
pai é aprender o desapego de si mesmo. É aprender a domar o selvagem
egoísmo e o “eucentrismo” que urra dentro de nós. É deixar-se doer de
amor por aquela pequenina criatura, parte de você, que fragilmente
espera por seu cuidado e por sua atenção. É morrer para seus “purismos”
mais impuros, para renascer genitor.
Ser
pai é aprender que a cumplicidade mãe e filho é algo inestimável e por
isso saber colocar-se, principalmente nos primeiros anos do pequenino
bebê, no seu devido lugar. Nesse tempo o pai é especialmente protetor e
contemplativo da relação intensa entre os dois: o que esteve dentro,
no útero, e a que o acolheu, no útero. O pai, nessa época, é alguém
como que de fora. Faz parte da relação, mas não partilha das primeiras
revelações íntimas pós-uterinas. À medida que os dias avançam,
integra-se de maneira igualmente intensa e amorosa na relação filial.
Assim, ser pai é saber cuidar sem ser cuidado, descobrir o ritmo do
afastar-se e do aproximar-se, isso tudo sem ferir a si mesmo e ao
outro, como que tomado pelo desvanecimento da exclusão e da
inferioridade. Ser pai é não exigir para si o protagonismo da história
da vida.
Ser
pai é ver os filhos crescendo ao redor e tê-los como amigos. Todavia,
ao mesmo tempo, ser pai é não negar-lhes a bênção do ensino e da
orientação, por meio de conversas, beijos, abraços, “varas” e
repreensões. Não repreender com dureza e ternura é o mesmo que deixar o
filho à solta, à míngua, sem parâmetros que o nortearão para toda a
vida. E o pior, sem essa expressão de amor jamais a criança conhecerá
profundamente o Deus que é todo amor e todo justiça. O pai que se omite
na criação se omite no amor e no cuidado. O dinheiro pouco pode
realizar nessa área do relacionamento.
Ser
pai é ver o tempo passar velozmente, testemunhar os meninos se tornando
moços tão belos, tão rapidamente e trazer consigo aquele sentimento de
incompletude: “eu poderia ter feito mais por eles…” Ser pai é ser
assim: totalmente felicidade, totalmente dúvida. Ser pai é indagar-se
no paraíso.
Fonte: via Irmãos.com
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