O
pastor titular era culto, falava com eloquência, citava de cor palavras
e frases do grego e do aramaico e trechos dos mais notáveis teólogos da
Europa. Usava vestes talares de cores diferentes, uma para cada ocasião
do calendário litúrgico. Para evitar a mania do pecado, ele quase não
pregava sobre o assunto. Como consequência natural desse escrúpulo, o
reverendo omitia também qualquer referência à expiação e ao perdão de
Deus, mediante Jesus.
A membresia era formada de
homens e mulheres da alta sociedade. Todos estavam “bem de vida” e
possuíam tudo de que precisavam e também o supérfluo. A aparência não
podia ser melhor. Porém, no íntimo e aos olhos de Deus, eles, o pastor
titular e os outros onze pastores (o número nunca era menor nem maior,
para coincidir com os doze patriarcas e os doze apóstolos), eram todos
miseráveis, infelizes, pobres, cegos e nus. De vez em quando, um ou
outro membro da liderança sentia um forte arrepio e estremecia com a
formalidade ostensiva da igreja e com o seu distanciamento cada vez
maior do evangelho e da própria pessoa de Jesus.
Certa
manhã, quase na hora do culto matutino, quando os diáconos foram abrir
as portas do templo, encontraram debaixo da porta principal um bilhete
no qual estava escrito:
“Eu estou [aqui do lado de fora]
batendo à porta constantemente. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a
porta, eu entrarei e farei companhia a ele, e ele a mim”.
Era um recado endereçado ao pastor titular, da parte “daquele por meio de quem Deus criou todas as coisas!” (Ap 3.14-22).
Parece
que a igreja não reagiu à altura e veio a morrer. Ela não existe mais.
No quarteirão onde ficava o seu templo, hoje há um “shopping center”!
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