sábado, 19 de maio de 2012

Profetismo -- item esquecido da missão integral


revista / edicao 335 / profetismo-item-esquecido-da-missao-integral
    
Robinson Cavalcanti

A missão integral da Igreja não é uma corrente teológica contemporânea, mas a explicitação do conteúdo da missão, conforme o exemplo e o ensino de Jesus Cristo. Ao longo da história, aspectos dessa missão têm sido sub ou superenfatizados. A Igreja legitima a própria existência como agência missionária na totalidade da missão a ela confiada, na diversidade de dons e vocações dos integrantes e nas possibilidades e oportunidades de cada conjuntura. A missão integral inclui cinco itens: evangelismo (“kerigma”), comunhão (“koinonia”), ensino (“diakonia”), serviço e profetismo (estes na “diakonia”). Denominados “avenidas da missão” pela Conferência de Lambeth de 1988 dos bispos anglicanos, eles são assim definidos: 1) proclamar o evangelho do reino de Deus; 2) batizar e integrar os convertidos a uma comunidade de fé; 3) ensinar todo o conselho de Deus; 4) despertar no coração dos fiéis respostas de misericórdia às necessidades humanas; 5) denunciar as estruturas iníquas da sociedade, defender a vida e a integridade da criação. A missão integral foi esquartejada contemporaneamente pela polarização entre o “evangelho individual” e o “evangelho social” e seus derivativos, como o fundamentalismo e a teologia da libertação. O Brasil foi, depois, afetado por essa polarização parcializante e mutilante.

Conservadores não têm problema com o evangelismo, a integração a uma igreja ou o ensino. Porém, nem sempre estiveram livres do reducionismo de uma “graça barata”, do sectarismo ou de ensinos de escassa (ou nenhuma) base bíblica. Alguns aceitam a necessidade do serviço como “isca” para o evangelismo ou como forma opcional e bondosa de “caridade”, enquanto outros pensam que a responsabilidade social é do governo ou que os problemas sociais decorrem apenas de pecados individuais, e a conversão é o que interessa. A dimensão profética é ignorada ou negada, seja pelo pessimismo escatológico pré-milenista e pré-tribulacionista, seja pelo adesismo acrítico aos sistemas políticos e econômicos (“obedecer às autoridades”), seja pela sacralização destes sistemas pela “civilização ocidental” ou pelo destino manifesto de um país “escolhido” como ensaio da nova humanidade. Liberais tendem a não se envolver com o evangelismo, visto pejorativamente como “proselitismo”, além de desnecessário para uma soteriologia universalista (todos salvos) em que o batismo e a vinculação à Igreja são algo bom, mas opcional, pois “Jesus veio para trazer o reino e não para criar a Igreja”. Para eles, esta é uma instituição transitória, e o ensino deve ser plural e especulativo, pois a Bíblia é uma literatura religiosa humana plena de erros e a verdade revelada absoluta não existe; ensiná-la é fomentar alienação, intolerância, misoginia, sexismo e homofobia. Quanto ao serviço, alguns o acham necessário enquanto uma sociedade utópica não virar tópica, e outros o combatem por ser um mero paliativo alienante, obstáculo às reformas estruturais necessárias. A missão se reduz ao profetismo sempre atrelado a uma ideologia secular, como foi, por um tempo, o nazismo ou o marxismo.

O evangelicalismo, que tem procurado resgatar a integralidade da missão em todas as dimensões, deságua no Movimento de Lausanne e tem expressões regionais, como a Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL). O Pacto de Lausanne ou a Declaração de Jarabacoa, da FTL, sobre a responsabilidade política dos cristãos, são documentos sólidos relativos ao que os católicos romanos chamam de “doutrina social da Igreja” e os protestantes, de “pensamento social cristão”. Na prática, porém, evangelismo, comunhão e ensino formam a “missão quase integral” -- tanto nacional quanto importada, com o serviço extremamente débil (“boas obras é negócio para católico querendo escapar do purgatório ou de espírita querendo uma melhor reencarnação”) --, não considerada como evidência necessária e desdobramento da salvação (“para que nelas andássemos”). O profetismo é algo ausente do que se crê, do que se ensina e do que se pratica. Se as utopias seculares “foram para o espaço”, “levando de roldão” a esquerda teológica -- hoje relativista, cética ou mística, acendendo incenso ou abraçando árvores --, a direita teológica ainda a vê como “coisa de comunista” e afirma que não adianta fazer nada, pois o mundo vai de mal a pior e, já que as pessoas vão mesmo ferver no inferno, é bom que comecem ensaiando neste mundo. A defesa da integridade da criação (ecoteologia) divide os cristãos quanto à consciência e à atitude, bem como a defesa da vida no tocante ao aborto, à eutanásia, à tortura e às desigualdades sociais. Isso porque, para além de meras opções individuais, ou algo histórico e cultural, elas decorrem de políticas públicas, decididas por governantes concretos, seus partidos, programas e ideologias, que representam interesses econômicos.

Os cristãos não querem sair da zona de conforto, se engajar, se libertar da imprensa manipuladora, lançar mão das ferramentas das ciências sociais, se chocar com os donos do poder (aliados na troca clientelística de interesses), ou porque os “filhos do rei” querem integrar o “andar de cima” (sinal da bênção da prosperidade), e essa coisa de ética e “denunciar as estruturas iníquas da sociedade” pode resultar em perda de emprego, cadeia ou perda de vida (esse negócio de martírio...).

“A tarefa da Igreja é uma só: mudar o mundo” (Charles Finney).

Dom Robinson Cavalcanti • é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política -- teoria bíblica e prática histórica, A Igreja, o País e o Mundo -- desafios a uma fé engajada e “Anglicanismo -- identidade, relevância, desafios”. www.dar.org.br


sexta-feira, 18 de maio de 2012

O VALOR DO TEMPO


Perderam-se ontem, entre o nascer e o pôr-do- sol, duas horas de ouro, cada uma com sessenta minutos de diamante. Não se oferece recompensa porque se foram para sempre.   Horace Mann
O valor que você deposita no seu tempo irá determinar aquilo que você receberá em retorno. Se você não é cuidadoso e tem se tornado negligente no uso do tempo, você não terá muito que mostrar. Contudo, quando você encara seu tempo como algo precioso, de valor incalculável, o qual, uma vez perdido, jamais poderá ser recuperado, você poderá investir um esforço especial para retirar o melhor de cada minuto e dessa forma alcançar realizações bem-sucedidas.

O milionário homem de negócios, o atleta vitorioso, o notável músico, todos eles têm o mesmo número de horas em sua vida, como todas as outras pessoas. No entanto, pelo fato de valorizarem, apreciarem e retirarem o melhor de cada momento, a vida deles é norteada por realizações excepcionais.

Se você sente que não existem horas suficientes num só dia para tudo o que você tem que fazer, então considere a maneira como está gastando as horas que estão a seu dispor. O tempo pode trabalhar contra ou a seu favor, dependendo da maneira como você utiliza cada precioso momento. Valorize seu tempo, e ele também irá valorizá-lo.
Nélio DaSilva

Para Meditação:
Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus.  Efésios 5:15-16

A missão integral de Jesus


 revista / edicao 335 / a-missao-integral-de-jesus
   
René Padilla

Basta um estudo superficial de como Jesus desenvolveu seu ministério terreno para comprovar que para ele todas as necessidades humanas eram uma oportunidade de serviço. Nos Evangelhos não há a menor evidência de que ele pusesse as necessidades espirituais acima das corporais nem estas acima daquelas. Segundo o testemunho de Mateus, “percorria Jesus todas as cidades e aldeias da província da Galileia, ensinando nas sinagogas deles, e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo” (9.35).

Seu ensinamento, de um alto conteúdo ético, se resume no Sermão do Monte (Mt 5–7) e deixa claro que o que Deus requer de seus filhos não se limita a deveres religiosos na área da relação com ele, mas se estende a todos os aspectos da vida humana, sem exceção. Além da relação com Deus, abarca a relação com o próximo e com a criação de Deus. Como sugere o Pai-Nosso, se orienta para “o cumprimento da vontade de Deus na terra” da mesma maneira como essa boa e soberana vontade se cumpre no céu. O ministério de Jesus inclui, portanto, o ensino da lei de Deus e dos valores do reino: paz, justiça, reconciliação, atitude em relação aos bens terrenos.

Vinculada estreitamente com o ensino, “a proclamação do reino de Deus” é um aspecto essencial do ministério de Jesus. Com efeito, o estudo deste conceito nos Evangelhos nos permite afirmar, sem medo de errar, que este foi o tema fundamental da pregação de Jesus. Não é à toa que a expressão reino de Deus (ou seu equivalente “reino dos céus”, no Evangelho de Mateus) se repete com tanta frequência nos Evangelhos. O de Marcos capta a importância desta proclamação quando resume as boas novas anunciadas por Jesus nestes termos: “O reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho” (1.15b). Em um ambiente de expectativas messiânicas, como o que reinava entre os judeus naquele tempo, Jesus anuncia o cumprimento das profecias do Antigo Testamento. Não em termos do advento de um messias conquistador que vem libertar a nação de Israel de seus opressores, mas sim em sua própria pessoa e obra. Ele é o rei-servo que veio para estabelecer um reinado de paz e justiça! Como ele mesmo afirma no sermão inaugural (baseado em Isaías 61.1-2), na sinagoga de Nazaré da Galileia, no começo de seu ministério, referindo-se ao Messias enviado por Deus para anunciar boas novas aos pobres, proclamar liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos e pregar o ano aceitável do Senhor: “nele se cumpre esta Escritura” na presença de seus ouvintes. E estes experimentam a presença do reino em suas vidas, na medida em que respondem a ele em arrependimento e fé.

O ensino e a proclamação do reino de Deus são acompanhados pela ação de Jesus em termos de “cura de toda enfermidade e de toda dor”. Os quatro Evangelhos demonstram essa maravilhosa liberação de poder milagroso em resposta às necessidades corporais de multidões submetidas à pobreza, sobretudo na província da Galileia. É óbvio que para Jesus o corpo humano não é menos digno de atenção e cuidado que o espírito.

Se algo está claro a partir da descrição do ministério de Jesus é que para ele a unidade do ser humano é uma premissa fundamental e, consequentemente, a missão de Deus aponta para a restauração da totalidade da pessoa em comunidade, segundo o propósito que estabeleceu originalmente na criação. Assim, hoje tomamos parte nisso como continuadores da missão integral de Jesus, na medida em que orientamos nosso ministério para a satisfação de necessidades humanas de pessoas indivisíveis.

Traduzido por Wagner Guimarães

C. René Padilla • é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de O Que É Missão Integral?.


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Não vou me deixar controlar


revista / edicao 335 / nao-vou-me-deixar-controlar
    
Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski

Jovens recém-casados têm medo de serem controlados e dominados pelo cônjuge. Receiam a despersonalização ou a perda de identidade. Na realidade, o que ocorre no início do casamento é uma fase de intensos ajustes que provoca desestabilização momentânea, a qual chamamos etapa de “volta à realidade”.

Passado o momento inicial de lua-de-mel, o casal precisa definir rotinas e acordos para a convivência. Desde microacordos, como o lugar correto de deixar o sapato quando se chega em casa, até macroacordos, como o estilo de vida que querem desenvolver. Para cada detalhe é necessário um acordo específico. Alguns deles são simples de ser alcançados, pelo fato de os nubentes virem de estilos e formas de pensar semelhantes. Todavia, existem áreas em que as aprendizagens de cada um com as famílias de origem foram divergentes.

Todos nós avaliamos a realidade e desenvolvemos códigos de ética próprios a partir das vivências com nossa família de origem. É dentro dela que aprendemos o que é certo ou errado, bonito ou feio etc. Cada família tem usos e costumes únicos. Apesar disso, acreditamos que todos que têm costumes distintos dos nossos estão errados -- e isso inclui nosso cônjuge.

Certa vez, alguém me disse a respeito do cônjuge: “Como ele não sabe que é errado bocejar sem colocar a mão na frente da boca?”. Acreditamos que o outro precisa ter a mesma percepção da realidade que nós e nos frustramos quando isso não acontece. O perigo é deixar esta frustração crescer e transformar-se em mágoa.

Não só nos frustramos como também tentamos impor ao outro a nossa aprendizagem, querendo transformá-lo “à nossa imagem e semelhança”. Assim, entramos em embates intermináveis com o objetivo de “convencer” o outro de que estamos certos e ele, errado. Isso gera desgaste emocional e não produz mudança alguma.

A alternativa é abrir-se a um diálogo fecundo, desarmado e humilde, com a convicção de que “eu percebo a realidade desta forma, mas posso estar errado”. É preciso ouvir o outro sem querer responder prontamente. Há uma impossibilidade neurológica de ouvir alguém e pensar em uma resposta simultaneamente. Quando em um diálogo começamos a refletir sobre o que vamos responder, paramos de ouvir de imediato.

O diálogo é útil para criarmos juntos “uma nova alternativa”, que não é necessariamente a minha, aprendida na minha família, nem a do outro, aprendida na família dele, mas algo diferente, que será a nossa forma única e exclusiva de lidar com determinada realidade.
Nos encontros de casais que ministramos,1 propomos exercícios de diálogo para desenvolver os acordos. Percebemos, então, que muitos têm dificuldade de sentar relaxadamente com o cônjuge para conversar -- embora consigam falar (e muito) em grupo e expor com clareza um ponto de vista. Talvez, o impedimento seja, de fato, o receio -- que citamos no início -- de ser controlado pelo cônjuge.

Esta é a segunda etapa do ciclo do casamento. Na próxima edição veremos o que ocorre quando um cônjuge insiste em convencer o outro a “engolir sua argumentação”.

Nota
1. Programa de Enriquecimento Matrimonial (PEM). Para mais informações, acesse: www.eirene.com.br

Carlos “Catito” e Dagmar • são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família. Catito é autor de Como se Livrar de um Mau Casamento e Macho e Fêmea os Criou, entre outros.



A mãe de Moisés


    Meu nome é Joquebede, que quer dizer “Jeová é a minha glória”. Tenho algumas lembranças muito tristes, como o estupro de minha tia Diná e a vingança cruel que meu pai Levi e meu tio Simeão infligiram aos siquemitas. Sou casada com Anrão, que é meu sobrinho. Para mexer comigo, meu marido, de vez em quando, me chama de tia. Somos tementes a Deus. Acabamos de sair do Egito e estamos acampados ao pé do monte Sinai. Faraó custou a nos deixar sair e só o fez depois de grandes manifestações de julgamento da parte de Deus. Meus filhos Moisés e Arão foram os instrumentos que Deus usou para nos retirar do Egito. Nosso destino é Canaã, a terra que mana leite e mel,prometida aos nossos antepassados Abraão, Isaque e Jacó, que a percorreram de ponta a ponta. Estou bem avançada em anos. Não sei se chegarei até lá. Mas sinto-me realizada e profundamente grata a Deus por todos os seus benefícios.
Salvo do genocídio
Estou me lembrando agora de quando fiquei grávida pela terceira vez, há oitenta anos. A essa altura já tínhamos uma filha e um filho: Miriã e Arão. Os tempos eram muito difíceis. Faraó começava a apertar o cerco contra nós. Não valia a pena colocar mais filho no mundo. Anrão e eu evitávamos o relacionamento físico naqueles dias em que certamente poderia ocorrer uma gravidez. Mas houve um lapso e fiquei esperando um bebê. Orávamos diariamente para que fosse uma menina, porque Faraó havia ordenado a matança pura e simples de qualquer criança do sexo masculino nascida entre os hebreus. Era uma questão de segurança nacional, justificava o rei do Egito. Achamos por bem esconder a gravidez. Então passei a usar roupas ainda mais largas. De vez em quando uma comadre me dizia que eu estava engordando e eu, naturalmente, concordava com ela para encerrar a conversa o mais rápido possível. O parto foi bem discreto: meu marido mesmo cuidou de mim. Não era a menina que havíamos pedido insistentemente a Deus, mas um menino robusto e formoso. Todos nos entreolhamos e assumimos a situação. Como ninguém sabia da gravidez, resolvemos ocultar também a própria criança.
 
A tarefa não foi fácil. As fraldas eram lavadas e estendidas dentro de casa para não chamar a atenção das pessoas. Acho que nenhum recém-nascido tomou tanto mel quanto esse nosso filho: mal ele começava a chorar, Miriã pingava uma gota de mel na boca do garoto. Se insistisse no choro, a família inteira entoava o mais alto possível os cânticos do Senhor. Éramos conhecidos como a família cantante. Não podendo escondê-lo por mais tempo, calafetamos com betume e piche um pequeno cesto de junco e nele colocamos o menino, então com 3 meses de idade. Eu mesma levei o cestinho e o larguei no carriçal à beira do rio Nilo, nas proximidades do sítio onde a filha de Faraó costumava banhar-se. Era um lugar mais ou menos seguro, longe da correnteza, a salvo dos crocodilos, da famosa tilápia nilótica (que chega a pesar 90 quilos) e do peixe-elétrico (que é capaz de produzir uma descarga de 300 a 400 volts). Meu medo maior era de um tipo de cobra venenosa chamada naja haie, comum no Egito. Mas todo o nosso plano foi preparado na presença e na dependência de Deus, com muita oração. Desde o nascimento do menino, tive o pressentimento de que ele era formoso também aos olhos de Deus. Voltei para casa e deixei Miriã nas proximidades do lugar onde o menino ficara.
 
Salvo das águas
Deus fez infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos. O plano deu certo. A filha de Faraó desceu ao rio dos rios e logo viu o estranho cestinho. Curiosa, ela mesma o tomou e o abriu. Meu filho chorava — estava molhado de xixi, com fome e sem as gotinhas de mel de Miriã — e a princesa se ligou imediatamente a ele. Ela era uma das sessenta filhas de Ramessés II e se chamava Merris. A jovem logo percebeu que o menino era filho de hebreus e o adotou. Nesse momento, Miriã entrou em cena e se ofereceu para chamar uma mulher hebreia para amamentar a criança até o desmame. A princesa deu o seu consentimento — afinal o garoto estava morto de fome e chorava sem parar. Minutos depois, lá estava eu com meu próprio filho ao seio, sem que Merris soubesse que eu era a mãe dele. Por ironia da história, até recebi salário para cuidar do menino. A filha de Faraó deu-lhe o nome de Moisés, que significa “salvo das águas”. Só então percebi que nossas orações devem ser flexíveis e inteiramente sujeitas à vontade e à sabedoria de Deus. Felizmente, o Senhor não as ouviu ao pé da letra, quando lhe pedíamos que viesse uma menina e não um menino.
 
Salvo dos prazeres transitórios do pecado
Além de alimentar Moisés e lhe dispensar outros cuidados físicos, transmiti-lhe as primeiras impressões e informações recebidas de nossos ancestrais sobre Deus e sobre o nosso povo. Porém ele foi educado em toda a ciência dos egípcios. Tornou-se um homem poderoso em palavras e obras. Aos 40 anos, ele recusou ser chamado filho da filha de Faraó e se identificou conosco, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado. Abandonou o Egito e permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível. Mais tarde, já casado e com dois filhos, Deus lhe apareceu na terra de Midiã, numa chama de fogo, e o comissionou para liderar o êxodo de Israel.
 
Ao voltar ao Egito, aconteceu uma coisa terrível: Deus veio ao seu encontro numa estalagem e o quis matar. Pode parecer muito estranho o Senhor querer destruir o instrumento que Ele mesmo escolheu, preparou e equipou. Moisés e Zípora, sua mulher, logo entenderam que tratava-se de uma advertência divina para que eles circuncidassem os filhos, cumprindo assim “o sinal da aliança” dado por Deus a Abraão e aos seus descendentes.
 
Quanto ao êxodo e à nossa viagem até aqui, ao pé do monte Sinai, privo-me de narrar todos os fatos para não me alongar demais. Há vários dias, Moisés se encontra no alto do monte de Deus. Aqui embaixo há uma certa inquietação e uma movimentação que começa a me preocupar. Estou orando muito por Arão, três anos mais velho que Moisés. A responsabilidade dele é muito grande.
 
Nota
Retirado do livro Deixem Que Elas Mesmas Falem, de Elben César.
O título original é “Meu filho é homem. E agora?”.

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Diretor-fundador da Editora Ultimato e redator da revista Ultimato, Elben César é autor de, entre outros, Mochila nas Costas e Diário na MãoPara Melhor Enfrentar o SofrimentoConversas com LuteroRefeições Diárias com os Profetas MenoresA Pessoa Mais Importante do MundoHistória da Evangelização do Brasil Práticas Devocionais. Ex-presidente da Associação de Missões do Terceiro Mundo e fundador do Centro Evangélico de Missões, do qual é presidente de honra, é também jornalista e pastor emérito da Igreja Presbiteriana de Viçosa.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

O ambiente humano


revista / edição 335 / o-ambiente-humano

Marina Silva

O Brasil passou a última semana de janeiro vendo escombros em reportagens televisivas sobre o resgate das vítimas do desabamento dos três prédios no centro da cidade do Rio de Janeiro. Além de sofrermos com as famílias e torcermos por um final feliz para cada espera, perguntamos, em escala nacional, qual seria a causa da tragédia. Aos poucos a causa foi ficando clara, pois nenhum fenômeno natural estava em sua raiz. Não foi desabamento por chuvas nem movimento de terras subterrâneas. O colapso da estrutura de um dos prédios, provocado por falha humana, era a explicação.

No mesmo período vimos outras imagens de escombros. Dessa vez, nas notícias sobre a ação do governo do estado de São Paulo na desocupação de áreas pertencentes à massa falida da empresa do Grupo Naji Nahas, em Pinheirinho, São José dos Campos. Seis mil pessoas foram desalojadas pela polícia. Máquinas destruíram casas sem que seus moradores pudessem retirar delas um garfo sequer, deixando atrás de si destruição, desolamento, pedaços estraçalhados de bens. De novo a causa não foi ventania, furacão ou outra razão natural, mas a atuação de instituições oficiais.

De tais escombros se eleva uma mensagem, uma reflexão. O Salmo 115.16 diz que Deus nos deu este planeta. No-lo deu pleno de vida (Gn 1.22) e de recursos para satisfazer nossas necessidades (Gn 1.29-30) e encarregou-nos de cuidar dele (Gn 2.15). Fez-nos corpo e espírito (Gn 2.7), portanto, com capacidade criativa, que nos permite criar sobre e com a criação. Assim, temos no planeta o ambiente natural e aquele que brotou dos artifícios humanos. Estes os cientistas chamam de cultura material. Quanto a eles, temos a seguinte recomendação: “Quando edificares uma casa nova, farás um parapeito, no eirado, para que não ponhas culpa de sangue na tua casa, se alguém de algum modo cair dela” (Dt 22.8).

Os primeiros escombros revelam nosso pouco cuidado com o ambiente que produzimos, com as normas técnicas, com a segurança, com a durabilidade do que fazemos. Os segundos, denunciam o pouco cuidado com as pessoas, com seus direitos, com sua felicidade. Falhamos na ética do cuidado na criação de nosso ambiente humano.

Foi um mau começo para o país que vai sediar no Rio de Janeiro, entre 13 e 24 de junho de 2012, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, apelidada de “Rio + 20”. Esse será um grande evento para se falar sobre o cuidado com o planeta, com os recursos naturais e com as pessoas, e para o qual se espera a participação do governo de mais de 100 países, além de membros da sociedade civil. Serão debatidos temas ambientais, como segurança climática, segurança energética, biodiversidade, cidades, água e oceanos. E também temas de natureza técnico-econômica, tais como desenvolvimento sustentável, produção e consumo sustentável, inovação tecnológica para sustentabilidade. O cuidado com as pessoas será expresso em temas como, segurança alimentar, migrações, trabalho decente e erradicação da pobreza.

A ONU se move por valores da civilização humana, por princípios erigidos na convivência laica. Qual não será a responsabilidade dos cristãos, que têm como guia a Bíblia, na qual passagens inteiras nos admoestam e educam quanto ao cuidado? Tomemos esta como exemplo: “Acaso não vos basta pastar os bons pastos, senão que pisais o resto de vossos pastos aos vossos pés? E não vos basta beber as águas claras, senão que sujais o resto com os vossos pés?” (Ez 34.18).

Marina Silva • é professora de história e ex-senadora pelo PV-AC.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Lebres, tartarugas e Big Brothers


 revista / edicao 335 / lebres-tartarugas-e-big-brothers

Davi Chang Ribeiro Lin

Era uma vez uma lebre e uma tartaruga que apostaram a vida na corrida do caminho. A lebre, veloz, desafiou a tartaruga, que, com frágeis passos, buscava uma improvável vitória. Poderia a persistente tartaruga vencer, mesmo diante de uma oponente tão forte? Mais do que uma fábula, tartarugas e lebres são modelos que tipificam nossa existência no caminho da vida.  

Nossa geração tem aversão a tartarugas. Lentas e pesadas, elas são inadequadas para a rapidez da era digital, que não valoriza a persistente e longa obediência no mesmo caminho. Em incessante movimento, nossa sociedade prefere as lebres, adaptadas para um rápido sucesso individual. 

A valorização do forte é expressa na corrida de lebres do Big Brother Brasil. Assim como elas, o “BBB” busca pessoas aptas a competir. Boninho, diretor do programa, afirma que, no Big Brother, “você tem um melhor amigo na casa, mas ele é o seu maior inimigo. Ele está competindo com você. Só um dos dois vai ficar com o dinheiro. É muito cruel. A gente quer sempre provocar o pior neles, nunca o melhor. A gente não quer que todo mundo se abrace e diga que se ama”.1 Como lebres cruéis que se especializam em excluir, os “brothers” fazem da vida um jogo em que o sucesso vale mais que a fidelidade nos relacionamentos. Nossa geração cresceu assistindo e incorporando a cultura do Big Brother. Aprendeu a competir como a lebre, mas clama pela constância e persistência da tartaruga, que permitem uma profundidade na experiência humana. 

No Big Brother, a sexualidade se desintegra da vida relacional que floresce no compromisso de aliança. Para os “brothers”, o sexo é um meio para o sucesso, baseado na “moralidade da negociação”. Para esta, o escândalo está relacionado apenas ao estupro e à pedofilia, expressões de violência ao sexo consentido. Contudo, o problema da violação é mais profundo: a expressão sexual deixou de ser maravilhamento diante da singularidade do outro. A visão de uma sexualidade como mercadoria desvincula a experiência sexual da integridade do amor. Todavia, o mistério da sexualidade é o presente do seu ser entregue ao outro em compromisso; é o belo desafio de se viver como guardião da amizade, da promessa e da esperança.

A desarmonia em que vivemos, expressa no Big Brother, despreza o fraco, incentiva uma cultura de exclusão e desintegra a sexualidade da vida relacional enraizada. As lebres de nosso tempo valorizam a conquista individual, a competição e a força. Nossa geração -- formada em um ambiente consumista, que busca prazer imediato -- precisa lutar pelos prazeres que advêm da fidelidade nos relacionamentos, abrindo-se para uma experiência de verdade e comunhão. 

É o povo de Deus que, ao redescobrir sua identidade como filhos amados, pode responder à cultura competitiva de exclusão. Ao afirmar a fraqueza da cruz, o evangelho abre espaço para todos os bichos -- tartarugas, lebres e até minhocas --, pois Jesus, o Leão de Judá, se tornou frágil Cordeiro. 

A fidelidade nos relacionamentos é uma viva confissão de fé. O tempo dado a um amigo, parente ou cônjuge para florescer é afirmação de uma espera radical. Abrimos nossa vida, aprendemos a amar e formamos comunidades porque confiamos no amor de Deus que sustenta nossas frágeis e perseverantes iniciativas de amor. Por sermos filhos do Pai eterno, a confiança no amor cresce, aprendemos a ser verdadeiros “grandes irmãos” e a esperança nos relacionamentos reflete a esperança viva em Jesus.

Quando a corrida terminar, no paredão de Deus, saberemos que a cruz de Cristo foi como o casco pesado de uma tartaruga que caminha rumo à vitória. Muitos confiam em lebres; mas os que têm a coragem de afirmar que tartarugas vencem, confiam no Cordeiro de Deus, que amou a criação e entregou sua vida por todos os bichos.

Nota
1. folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ 

Davi Chang Ribeiro Lin • 27 anos, é psicólogo e pastor da Comunidade Evangélica do Castelo, em Belo Horizonte. É mestre em estudos cristãos pelo Regent College, Canadá.