O céu aberto de Agostinho
Agostinho, sem dúvida, era um homem privilegiado intelectualmente (não obstante, lamentou sua dificuldade em aprender a língua grega). Era também um escritor prolífico -- suas obras têm tido sucessivas edições em praticamente todas as línguas europeias. Suas principais obras são “Confissões” (um clássico não apenas da espiritualidade, mas também da literatura mundial) e “Cidade de Deus”. No entanto, escreveu muitas outras obras, disponíveis para o leitor em língua portuguesa. Um fato estranho é que, a despeito da inegável importância e influência de Agostinho para e sobre a teologia protestante, não há sequer uma de suas obras que tenha sido publicada no Brasil por editora teológica não-católica. Suas elaborações a respeito de temas teológicos complexos, como a predestinação, o pecado original, o problema do mal, a igreja (sua visão de igreja como “corpus permixtum”, isto é, comunidade formada simultaneamente por “trigo e joio”), a posição escatológica amilenista, e outros, ainda hoje são estudadas e defendidas. Sua compreensão do problema do tempo estava, com o perdão do trocadilho, adiante do seu tempo. Agostinho foi ainda o primeiro a pensar (no já citado “Cidade de Deus”) em uma filosofia cristã da história, ou seja, pensar o longo desenrolar da história a partir de uma perspectiva da soberania divina. Sua teoria da guerra justa, para o bem ou para o mal, também foi influente durante todo o decorrer da Idade Média e, em nossos dias, influencia a política externa do Partido Republicano dos Estados Unidos. Agostinho também escreveu a respeito do problema sinótico, ou seja, o problema da composição dos três primeiros evangelhos canônicos. A chamada “hipótese agostiniana” sustenta que o primeiro Evangelho escrito foi Mateus, seguido por Marcos, que teria usado como fontes o Evangelho de Mateus e a pregação de Pedro, e em terceiro o Evangelho de Lucas, que por sua vez teria usado como fontes os Evangelhos precedentes.
Contudo, não se pode, de modo algum, deixar de mencionar que Agostinho não foi apenas um intelectual de escritório, um teólogo teórico. Longe disso. Ele foi verdadeiramente um pastor, alguém preocupado com o andar com Deus e com a saúde da igreja. Quanto a isso, não se pode deixar de mencionar o encontro que Agostinho teve com o próprio Deus. Seu pai, Patrício, era pagão, mas sua mãe, Mônica, era cristã fervorosa. Quando jovem, Agostinho seguiu o exemplo paterno e, para tristeza da mãe, se entregou a uma vida dissoluta e desregrada. Porém, Mônica não cessou de orar pela conversão do filho. É conhecida a história de quando Agostinho, com a idade de 32 anos, na Itália, em companhia de seu amigo Alípio, ouviu uma criança que cantava “tolle et lege” (“toma e lê”); ao ouvir tais palavras, foi até o amigo, que estava com um exemplar das Escrituras. A primeira passagem que Agostinho leu foi Romanos 13.13-14 (NTLH): “Vivamos decentemente, como pessoas que vivem na luz do dia. Nada de farras ou bebedeiras, nem imoralidade ou indecência, nem brigas ou ciúmes. Mas tenham as qualidades que o Senhor Jesus Cristo tem e não procurem satisfazer os maus desejos da natureza humana de vocês”. O próprio Agostinho narrou em “Confissões” como sua vida foi mudada radical, profunda e permanentemente. Abraçou a fé cristã de todo o coração. Foi batizado pelo Bispo Ambrósio de Milão no ano 387. Ao voltar para sua região no norte do continente africano, foi ordenado sacerdote (391), depois eleito bispo coadjutor (auxiliar) em 396, e pouco depois disso passou para a condição de bispo principal -- categoria na qual ficou até sua morte. A conversão de Agostinho foi um divisor de águas definitivo em sua vida. A partir daí, todo o seu imenso potencial intelectual foi dedicado inteiramente à causa do reino de Deus. Há quem critique Agostinho pelo peso negativo excessivo que deu depois de sua conversão às questões de natureza sexual -- o que marcou e marca até hoje a ética sexual católica e protestante. Psicólogos falam do “complexo de Santo Agostinho” para se referir a quem parte de um extremo para o outro, de uma radicalidade para outra (no caso, de um extremo de devassidão a um extremo de ver questões sexuais como piores que outras). Independentemente disso, ninguém pode negar que Agostinho teve uma conversão verdadeira, que mudou verdadeiramente sua vida, não por seu próprio esforço, mas pela força da graça de Deus em seu coração.
• Carlos Caldas é doutor em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo e leciona na Escola Superior de Teologia e no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo.
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