sábado, 22 de dezembro de 2012

Quando a arrogância é maior que o bom senso

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Antes da Guerra Balcânica (1912–1913), da Primeira Guerra Mundial (1914–1918), da Guerra Civil Espanhola (1936–1939) e da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), a Europa estava muito eufórica, e a euforia é um risco enorme. A Grã-Bretanha tinha grandes possessões nos quatro continentes e era o maior império da história -- a “rainha dos mares” e a “oficina do mundo”. Outros países, como a França e a Alemanha, eram também nações poderosas.
Na passagem do século 19 para o 20, os americanos construíram a metralhadora Maxim (1892), Freud lançou o seu revolucionário “A Interpretação dos Sonhos” (1899) e o dirigível Zeppelin fez o seu voo inaugural (1900).
Nos primeiros trinta anos do novo século, o ser humano gabou-se de muitos sucessos: a radiotransmissão (1901), o primeiro voo motorizado (1903), a teoria da relatividade (1905), a descoberta de vastos campos petrolíferos no Irã (1908), o automóvel que andava a 40 quilômetros por hora (1908), o acesso ao Polo Norte (1909) e ao Polo Sul (1911), a descoberta de Machu Picchu (1911), o lançamento do maior navio do mundo (1912), a abertura do Canal do Panamá (1913), a primeira travessia aérea do Atlântico (1919), a conquista da cidade sagrada de Meca por aquele que seria o primeiro rei da Arábia Saudita (1924), a descoberta de outras galáxias (1925), a primeira demonstração pública da televisão e o primeiro foguete a combustível líquido (1926), o primeiro filme sonoro (1927), o primeiro voo solo de uma mulher (1930) e a inauguração do prédio mais alto do mundo (1931). 
Tudo isso colocou na cabeça dos europeus a ideia de que o mundo havia alcançado a maioridade e não precisava mais de Deus, assim como o filho adulto não precisa mais do pai. Por influência de Friedrich Nietzsche, começou-se a falar no “super-homem” ou no “homem além do homem”. O filósofo alemão, que morreu com a mesma idade de Hitler (56 anos) e quase meio século antes (1900), teve a ousadia de escrever: “Munido de uma tocha cuja luz não treme, levo uma claridade intensa aos subterrâneos do ideal” (Veja Friedrich Nietzsche: o cristianismo promete tudo, mas não faz nada!).
A soberba é um perigo terrível. Ela é sempre e invariavelmente destruída. O mestre em administração de negócios pela Vanderbilt University, nos Estados Unidos, e presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, ao escrever sobre o centenário do naufrágio do Titanic, lembra que “a arrogância nunca deve subjugar o bom senso” e aconselha: “A humildade é sempre boa conselheira, mesmo quando a autossegurança resulta de grande experiência ou baseia-se no uso de avançada tecnologia” (“Folha de São Paulo”, 15/05/2012).
O afundamento do Titanic aconteceu dois anos antes da Primeira Guerra Mundial e 24 anos antes da Segunda. Quando o navio ficou pronto, uma multidão de cem mil pessoas comemorou o evento. Era um momento de grande expectativa para a humanidade. Diziam que ele era “inafundável”. Porém, na madrugada de 15 de abril de 1912, em sua primeira viagem, um “iceberg” nem sequer perfurou o navio, apenas raspou o seu casco, deslocando placas de metal, e, no intervalo entre elas, abriu-se caminho para a água. Em poucos minutos, o “inafundável” começou a afundar e partiu-se ao meio. As duas partes (a popa e a proa) do “maior transatlântico” do mundo pousaram no fundo do mar a 600 metros de distância uma da outra, a uma profundidade de 3.965 metros. Porque o bom senso foi menor do que a arrogância, não havia escaleres suficientes no navio nem o comandante deu atenção aos sete alertas sobre “icebergs”.
Não é temerário relacionar o naufrágio do “inafundável” com o naufrágio do propagado Reich dos Mil Anos, que durou apenas doze -- de 30 de janeiro de 1933 (quando Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha) a 30 de abril de 1945 (quando ele cometeu suicídio). “O homem que sonhara construir o Reich dos Mil Anos” -- explica J. M. Roberts -- “só conseguiu provocar a destruição física de sua pátria”. Estima-se em quase 3 milhões a quantidade de alemães mortos na guerra e em mais de 5 milhões os feridos por causa da arrogância da Alemanha nazista. Uma arrogância não só desse país, mas de toda a Europa. A propagada raça superior, a tal “Alemanha eterna” e o anunciado milênio de glória e estabilidade -- o vento levou. O altar onde Hitler se assentava por conta própria e por conta dos seus adoradores desapareceu para sempre (assim se espera). As igrejas foram seriamente atingidas, mas não destruídas. Antes de elas serem destruídas, Hitler o foi.

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