domingo, 16 de dezembro de 2012

As boas novas não são novas nem boas

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Um brasileiro de dupla nacionalidade que mora em Roma há dois anos diz que na Europa “as boas novas não são novas e, para muitos, não são boas!”. E uma brasileira que mora em Munique há treze anos é mais taxativa: “A grande maioria [dos europeus] tem a vida dirigida pelo humanismo, que é incutido nas crianças ainda cedo. É como se eles dissessem: ‘Eu tenho tudo, para que preciso de Deus?’”.
Para entender e equilibrar essas questões de suma importância, Ultimato faz três perguntas a onze pessoas -- quase todas brasileiras -- residentes em diferentes lugares da Europa.

Os europeus olham com bons olhos a presença missionária estrangeira?
 
Samuel Igor Kutenski – O que temos visto são muitos alemães sedentos e famintos por viver algo novo e fresco de Deus. Embora sejam do país da Reforma Protestante, vários alemães não têm vergonha de vir e nos dizer abertamente: “Obrigado por terem vindo, precisamos muito de vocês; por favor, ajudem-nos a alcançar o nosso povo de volta para Deus”. Alguns falam isso com lágrimas nos olhos, segurando nossa mão firmemente e depois nos abraçando, coisa que não é tão normal e cotidiano na cultura alemã.
 
Karin Lebsack Sacramento – Não posso dizer muito a respeito dos missionários, mas, na minha igreja na Alemanha, pessoas de outros países sempre são muito bem-vindas, bem vistas e enriquecedoras.
 
José Marcos e Márcia Regina Más – Em Portugal há uma grande rejeição e desconfiança quanto a missionários de fora devido às seitas que aqui atuam. Os portugueses têm dificuldade de entender por que um estrangeiro precisa vir aqui para lhes falar de Deus.
 
Lauro e Rosane Castelli – Somos tidos como pregadores de seitas na Bélgica e na França. A palavra “missionário” não é bem vista e tem conexão com proselitismo. Por eu (Lauro) ser reconhecido pelo governo belga como pastor protestante, fica mais fácil, mas a resistência à nossa presença e função no país é bastante clara.
 
Dirceu Amorim de Mendonça – Depende do contexto. Entre os pastores espanhóis, sim. Entre os católicos, sim e não, pois alguns não compreendem o porquê de nossa presença, enquanto outros acreditam que o aumento da presença cristã na Europa é  positivo. Entre os cidadãos espanhóis não católicos ou não comprometidos, não somos muito bem vistos.
 
Lucimar Helena da Silva – Pessoalmente não tive nenhum problema. Sinto-me aceita aqui na Europa. Com sete anos de trabalho, percebo que os jovens querem algo mais.
 
Helena Malek – Tenho a impressão de que muitos europeus não estão conscientes da presença de missionários estrangeiros na Europa. Porém sei que aqueles que foram alcançados por meio deles, como é o meu caso, estão profundamente agradecidos!
 
René e Sarah Breuel – A igreja evangélica italiana aprecia muito os missionários que vêm ministrar aqui, por causa da grande necessidade espiritual, e nos acolheu muito bem. Os não-cristãos, entretanto, acham difícil entender o porquê de missionários na Itália, já que no imaginário coletivo a ideia é de missionário (no caso católico) saindo daqui para servir em países pobres.

O brasileiro é bem aceito?
 
Fábio Diniz Pinto – Não muito, por causa de problemas com os ilegais.
 
Ireni Bacanu – Sim, para a glória de Deus! Somos bem vistos e bem-vindos!
 
Helena Malek – Os brasileiros são amados por seu caráter alegre e amoroso, por seu otimismo e pela paixão que transmitem.
 
Lauro e Rosane Castelli – Depende. Se ele respeita a cultura do país e se adapta aos costumes do povo sem se impor, é bem aceito e respeitado.
 
José Marcos e Márcia Regina Más – Inicialmente não, embora amem o Brasil e reconheçam muitos valores em nós. Em Portugal, a presença brasileira gerou muitos conflitos culturais e o comportamento da maioria deles criou preconceito. Nosso primeiro passo é conquistar a confiança dos europeus, e isso leva tempo e requer muita paciência.
 
Karin Lebsack Sacramento – No caso da Alemanha, sim, se ele falar alemão.
 
Marlise Winter Dyck – O brasileiro é conhecido pela sua alegria e espontaneidade. Se ele quiser, encontrará abertura para falar do amor de Deus ao seu vizinho, ao seu colega de trabalho, ao seu amigo na escola.
 
René e Sarah Breuel – Na nossa experiência, o brasileiro é bem aceito como uma presença alegre e para conversas iniciais sobre comida, futebol, viagens. Porém sentimos resistência no momento de aprofundar relacionamentos e de sermos considerados como iguais. Muitas vezes sentimos um preconceito sutil. Eles querem mais tempo para confiar em estrangeiros.
 
Dirceu Amorim de Mendonça – Sim, principalmente depois do crescimento econômico brasileiro e da crise europeia.

A Europa é mesmo um continente pós-cristão?
 
Samuel Igor Kutenski – Muitas pessoas ilustram a situação atual da Europa com a figura de um campo que foi queimado. A queimada ajuda o campo a ser preparado mais rápido, outra vez, para o plantio. Deus quer alcançar a nova geração da Europa. Tenho certeza de que ele mostrará a sua fidelidade para com os filhos dos reformadores, pois a Bíblia diz que ele visita com bondade e misericórdia até a décima quarta geração daqueles que são retos e justos nos seus caminhos.
 
José Marcos e Márcia Regina Más – Minha experiência limita-se a Portugal. O cristianismo aqui está mesmo em pleno declínio. Há poucas semanas, a Igreja Católica divulgou que, nos últimos dez anos, 2 milhões de portugueses deixaram a igreja e apenas 17% da população é católica praticante.
 
Karin Lebsack Sacramento – Eu não diria isso. Minhas experiências me mostram que a doutrina é muito profunda, não é superficial como se vê no Brasil. São culturas diferentes. O europeu não é tão aberto como o brasileiro, não serve para medir a fé. O que não se acha na Alemanha são igrejas do tipo da Igreja Universal do Reino de Deus. Eles jamais terão sucesso na Alemanha.
 
Helena Malek – Olhando de fora, a impressão é que aqui o fogo do Senhor se apagou, mas, quando você viaja por aí e procura enxergar melhor, encontra grupos ou pessoas com o coração ardente por Jesus, por todos os lados!
 
Waldemar Sardaczuk – O mundo inteiro é um campo missionário!
 
Marise Winter Dyck – A Europa, assim como a Alemanha, berço da Reforma Protestante, têm se afastado completamente de Deus. Poucos são aqueles que são fiéis ao evangelho. A grande maioria não acredita no Deus soberano e criador. Suas vidas são dirigidas pelo humanismo, que é incutido nas crianças ainda cedo. É como se eles dissessem: “Eu tenho tudo. Por que preciso de Deus?”. É muito triste ver o estado espiritual da Alemanha e dos outros países da Europa. O índice de suicídios é enorme. As drogas e o álcool têm sido o meio de fugir do vazio e da solidão que sentem. É o povo mais carente que existe. Herda tudo e não tem nada! A Alemanha e a Europa precisam de uma nova Reforma. Precisam saber que Jesus morreu por cada um deles e ressuscitou a fim de que todos sejam salvos. Esse continente precisa declarar que Jesus Cristo é o Senhor!
 
René e Sarah Breuel – A Europa é, definitivamente, um continente pós-cristão. As boas novas não são novas e, para muitos, não são boas. A fé cristã é vista como algo do passado, arcaico na sua linguagem e mensagem, e com pouca relevância. Na Itália, os jovens julgam a igreja pelo seu poder, riqueza e por sua interferência na política italiana. Precisamos de muita criatividade para articular o evangelho de modo positivo para a Europa pós-cristã.
 
Dirceu Amorim de Mendonça – Sim, totalmente e em todos os sentidos. Para os europeus o cristianismo é uma religião antiquada, com laços sanguinários do passado, um instrumento de manipulação sociopolítica por causa da ditadura franquista (no caso da Espanha). A Europa e a Espanha precisam de evangelistas. O continente está aderindo ao ateísmo e ao mesmo tempo ao catolicismo cultural. Embora haja milhões nas ruas para celebrações religiosas (turismo religioso e cultural), não há mudança  alguma de caráter. Dizer que a Europa está se “islamizando” é a maior “lenda urbana”. Esse reducionismo divulgado por nossas agências e promotores de missões pode prejudicar a real visão sobre a necessidade evangelística da Europa.

Dirceu Amorim de Mendonça, brasileiro de Campinas, casado com Tirza, missionário na Europa desde 2003, residente em Dom Benito, Espanha (iglesiaevangelicapresbiteriana.blogspot.com.es) |
 
Fábio Diniz Pinto, brasileiro, solteiro, há dois anos na Europa, residente em Madri, Espanha 
 
Helena Malek, alemã, solteira, psicóloga, residente em Aachen, Alemanha (helena.malek@gmx.de)
 
Ireni Bacanu, brasileira, casada com um romeno, mãe de duas filhas, há quatorze anos na Europa, residente em Mangalia, Romênia 
 
José Marcos e Márcia Regina Más, brasileiros do estado de São Paulo, uma filha, há dois anos na Europa, residentes em Carnavide, Portugal

Karin Lebsack Sacramento, alemã, casada com um brasileiro, cristã desde os 11 anos, ex-missionária voluntária da Latin Link na Bolívia, há dois anos residente em Viçosa, MG 
 
Lauro e Rosane Castelli, brasileiros de São Lourenço, MG, casados, duas filhas, ex-missionários na Índia, há nove anos na Europa, residentes em Liege, Bélgica (www.castellis.info) 
 
Lucimar Helena da Silva, brasileira nascida em Minas Gerais, convertida em Nova York, há sete anos na Europa, diretora espiritual da JOCUM, residente em Herrnhut, 
 
Marlise e George Friesen Dyck, brasileiros do Paraná, dois filhos, há treze anos na Europa, residentes na Alemanha  -- ele é copastor da CBG, Igreja Cristã Bíblica Brasileira de Munique (cbgchurch.com)
 
René e Sarah Breuel -- ele tem cidadania brasileira e alemã e ela, cidadania americana e brasileira --, casados, dois filhos, há dois anos na Europa, residentes em Roma, Itália 
 
Samuel Igor Kutenski, brasileiro de Curitiba, PR, casado, dois filhos, pastor da Associação de Igrejas do Cristianismo Decidido, há um ano na Europa, residente em Essen, Alemanha
 
Waldemar Sardaczuk, ucraniano, casado, duas filhas, radicado na Europa desde os 10 anos de idade, presidente emérito da Missão AVC -- Nehemia, residente em Nidda, Alemanha.

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