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Rosivânia
Lúcia S. Tosta
A ocorrência de acidentes de trânsito, tanto nas
áreas urbanas (84%) quanto nas rurais, em nosso país tem sido crescente,
figurando entre as três principais causas de morte de pessoas na faixa etária
de 5 a 39 anos. Resultam em mais de 45 mil mortos e 400 mil feridos, com cerca
de 100 mil incapacitações permanentes. Entre as causas dos acidentes, se
destaca o comportamento humano: imprudência, consumo de bebida alcoólica,
excesso de velocidade, falta do uso de capacete ou de cinto de segurança.
Faltam investimentos suficientes em educação, engenharia e fiscalização -- o
tripé da segurança no trânsito.
Os acidentes de trânsito resultam em
impactos psicológicos e sociais. Os impactos psicológicos, ou sequelas
invisíveis, são os custos humanos, intangíveis e subjetivos, o sofrimento
físico e psicológico das vítimas e seus familiares. Os impactos sociais são
expressos nos altos custos econômicos e prejuízos para toda a sociedade.
Resultados de uma pesquisa realizada
em Palmas, TO, apontam que mesmo acidentes sem vítimas, com perdas somente
materiais, causam impactos psicológicos, em decorrência da fragilidade humana
revelada diante do inesperado. Em acidentes com vítimas não fatais,
verificam-se impactos psicossociais, com sofrimento e prejuízos diversos, decorrentes
de cirurgias e internações. Os acidentes com vítimas fatais resultam em maior
dor, desespero e sofrimento prolongado para os familiares.
Estudos com sobreviventes de
acidentes de trânsito mostram uma incidência de traumas emocionais em aproximadamente
13% a 21% deles. Os sentimentos são perplexidade, incredulidade e prolongado
sofrimento psíquico, podendo desencadear transtorno do estresse pós-traumático,
transtorno do pânico, ansiedade e depressão. Além das pessoas diretamente
envolvidas, como familiares e amigos, os profissionais que atuam no resgate,
policiamento, na área da saúde e os transeuntes também são impactados ao
participar da ocorrência ou mesmo ao tomar conhecimento dos fatos.
Muitos problemas no trânsito decorrem
de conflitos de relacionamentos: o predomínio da máquina sobre as pessoas e o
uso do veículo como instrumento de poder e competição, descontrole emocional,
egoísmo e irresponsabilidade. A mobilidade humana tem sido orientada pela
competição, e não pela cooperação. São necessárias reflexões e ações no sentido
de construir uma cultura de paz, cuidado e prevenção, por meio de atitudes como
conhecimento e respeito às normas de trânsito e aos direitos dos outros,
colaboração, tolerância.
Ao pensar na postura da igreja, nesse
contexto, a resposta de Caim parece ecoar em nossos ouvidos: “Não sei! Sou,
acaso, guardião do meu irmão?”. Sim, somos guardiões dos irmãos! A violência
urbana precisa fazer parte da reflexão e da agenda da igreja, chamada para agir
e ser relevante em sua realidade. A igreja, em sua missão integral, pode
contribuir por meio de ações de educação e conscientização, além do acolhimento
e apoio às vítimas e familiares. Precisamos ter o coração movido por íntima
compaixão pelas multidões que sofrem, pelos milhares destinados à matança no
trânsito e pelos sobreviventes feridos e sequelados. Precisamos orar -- e
“co-laborar” -- pela paz, de cidade em cidade.
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Rosivânia Lúcia S. Tosta, psicóloga clínica
e hospitalar, especialista em psicologia do trânsito, é diretora do Seminário
Teológico Getsêmani, em Palmas, TO.
rosivaniapsi@yahoo.com.br
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