Rubem
Amorese
O ministério de louvor é necessário?
Ou se trata de uma dimensão do culto a cargo do pastor, como era antigamente?
Se entendemos que sem adoração o
cristão não é cristão, então o ministério perde seu sentido, não havendo
necessidade da função. Entretanto, não se pode desconsiderar a necessidade
litúrgica das atividades de preparo, programação e condução do período de
cânticos, chamada de “louvor” nas igrejas que o adotam (algumas mantêm a música
congregacional e coral, o tempo de contrição, de poesia, dramaturgia, entre
outros inseridos na liturgia do culto).
Essa reflexão nos leva a questões
eclesiológicas não resolvidas na maioria das igrejas evangélicas de hoje.
Talvez pelo fato de o “período de louvor” e o “ministro de louvor” serem
fenômenos recentes.
Consideremos a definição do termo
“ministro”. Trata-se, a meu ver, do cerne da questão. A palavra “ministração”,
entendida como uma “função eclesiástica” ou como “unção espiritual” (envolvendo
dons e ordenação), pressupõe um serviço cristão -- um serviço comunitário
reconhecido e de proeminência. Portanto, um encargo de responsabilidade, por
causa da liderança que implica e de seu papel doutrinador. E também, o outro
lado da moeda, pelo seu poder de escandalizar (má influência).
Parece não haver dúvida sobre a
importância e responsabilidade daquele que conduz a liturgia do culto. Porém,
não me parecem tão claras aquela do tecladista, do operador da mesa de som, do
iluminador etc. Serão todos “ministros” no sentido aqui usado? A distinção
surge por causa do poder de influência. O guitarrista não teria a mesma
visibilidade do solista; os “back vocals” não precisariam de um bom testemunho
de vida cristã como o “ministro”.
Eis a questão: serão todos ministros
como o é o pastor, o presbítero, o diácono ou o professor? Ou deve haver uma
seleção graduada, conforme o cargo? Por exemplo, deve-se exigir menos preparo e
testemunho de vida do diácono (encarregado do exercício da misericórdia e da
assistência social) do que do presbítero (encarregado da oração e do ensino)?
Semelhantemente, exigiríamos menos do baterista do que do irmão que conduz a
adoração? A ponto, talvez, de não se exigir um testemunho de conversão ou um
período de convívio para conhecimento?
Com a multiplicação dos “ministérios”
necessários ao funcionamento das grandes igrejas, temo que muito da “qualidade”
do serviço seja esquecida. Porém, em comunidades pequenas pode ocorrer o
contrário: “Se não usarmos ‘o que temos’, ficaremos sem a ministração”. Em
qualquer dos casos, a igreja corre o risco de ser conduzida por bons artistas
sem experiência cristã. Já não são incomuns aquelas frases de tom piedoso e
teologia desastrosa aprendidas em programas de televisão ou em redes sociais.
Minha posição a esse respeito é, ao
mesmo tempo, tolerante e radical (que busca a raiz). Penso que a ministração na
igreja é de responsabilidade exclusiva dos cristãos (a critério de sua
liderança). A responsabilidade -- bem como o conhecimento bíblico e a
maturidade cristã -- deve crescer, de acordo com o poder de influência do
líder. Entendo também que cabe aos pastores do rebanho permanente cuidado a
esse respeito. Espinhosa incumbência essa.
•
Rubem Amorese é presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto,
em Brasília, e foi professor na Faculdade Teológica Batista de Brasília por
vinte anos. Antes de se aposentar, foi consultor legislativo no Senado Federal
e diretor de informática no Centro de Informática e Processamento de Dados do
Senado Federal. É autor de, entre outros, “Louvor”, “Adoração e Liturgia” e
“Fábrica de Missionários -- nem leigos, nem santos”. ruben@amorese.com.br
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