Valdir Steuernagel
É fácil perceber, ao olhar para os Evangelhos, como Jesus é um causador de confusões. Nada continua da mesma maneira depois que ele chega. Sua presença nos confronta com a realidade. Ele chega, por assim dizer, “destampando as panelas” e revelando o que tem dentro delas. Se uma está vazia, a outra exala o aroma irresistível de um belo cozido. Já na terceira, só há comida estragada e logo o cheiro se espalha por todo o ambiente. A presença de Jesus é sinal de esperança, mas também evidencia toda confusão vital e relacional. Ela denuncia todos os esquemas que acumulamos nos nossos bojos familiares, os quais acabam machucando e oprimindo os que se relacionam conosco.
No
capítulo 3 do Evangelho de Marcos (a partir do versículo 20), lemos que
Jesus entra numa casa e logo a confusão se instala. A casa se enche de
gente: uns são meros curiosos; outros estão ansiosos para ouvir o que
ele diz; alguns não conseguem esconder sua dor; outros, de olhar
petrificado, lutam contra algo ruim que os consome por dentro. Há também
os que analisam cada gesto de Jesus, prontos a denunciar o que quer que
ele diga ou faça que não caiba no parâmetro ideológico-religioso deles.
A demanda é tão grande que eles “não conseguem nem comer”.
Em
meio a tudo isso ocorre um significativo desencontro na própria família
de Jesus. Eles estavam passando por um momento difícil e não sabiam
mais o que fazer. Jesus não se encaixava no “formato familiar” e estava
comprometendo o que eles criam e a imagem que haviam construído. Era só
Maria entrar no armazém da esquina que o dono dizia: “Ele não é seu
filho? E vocês não fazem nada?”. Então, ela saía dali reprimindo as
lágrimas, que eram uma pequena expressão do seu caos interno.
Lembrava-se da promessa de quando ele fora gerado, do jeito como ele
crescera “em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens”
(Lc 2.52) e de seus primeiros passos ministeriais. Eram exatamente estes
passos que a deixavam confusa. Por um lado, era claro como ele se
relacionava com as pessoas e lhes devolvia a inteireza de vida, e também
como a sua palavra fazia absoluto sentido. Por outro lado, às vezes
parecia radical e arrogante, ao denunciar a estrutura político-religiosa
na qual viviam. O pior não era a opinião dos outros, mas a confusão
gerada no seio da família. Ela não aguentava mais as intermináveis
discussões em casa e acabou concordando com a decisão de ir buscá-lo e
ver o que se podia fazer. Porém, isso não era nada fácil. Quando tentou
fazê-lo, a coisa se tornou pública. Havia gente por todo lado e o
próprio Jesus piorou a situação ao dizer: “Quem é minha mãe, e quem são
meus irmãos?”. E logo emendou, apontando para uma nova realidade: “Quem
faz a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc
3.33, 35).
A presença de Jesus nas nossas
famílias precisa causar confusão e pode até provocar desagregação. Uns
aceitam-no, bem como a sua palavra, enquanto outros o colocam sob
suspeita, podendo rejeitá-lo. Sua presença expõe nossas estruturas e
esquemas de desencontros, desajustes e até de exploração e opressão. E
como toda família tem algo assim, a presença de Jesus gera desconforto e
inconformidade. Afinal, em nossa casa também há “comida estragada na
panela”. Até mesmo Maria, que havia lutado tanto para construir uma
família unida e comprometida com os valores e o sentido do reino de
Deus, precisou tomar consciência de que a sua família era apenas a
família humana de Maria e seus filhos e filhas1 (Mc 6.3), com
seus esquemas e desencontros. A esperança para eles passava pela
desconstrução e pela integração na nova família da qual Jesus falava — a
família dos que fazem a vontade de Deus e encontram nisso o sentido da
vida.
O testemunho de Maria caminha nessa direção.
Na crucificação de Jesus, ela está aos pés da cruz. Ali o vemos
manifestar seu cuidado para com a mãe, abrigando-a em uma família como a
que ele havia aludido em seu ministério (Jo 19.25-27). Nos primórdios
da igreja primitiva, Maria está presente com seus filhos, reunidos em
oração com outros seguidores de Jesus (At 1.14). A família havia se
convertido. Havia reconhecido o seu erro de tentar interpretar e
enquadrar Jesus e havia permitido que ele desse um novo sentido para
eles, ajudando-os a descobrir o seu vínculo com a família de Deus.
Afinal, é na família de Deus que as nossas manias, vícios e esquemas
limitadores e destruidores são confrontados. Nela descobrimos a
liberdade do reino de Deus e da sua justiça, e todas as demais coisas
nos são acrescentadas (Mt 6.33).
Quando, após a
descida do Espírito Santo, a igreja começa a ganhar forma, vemos emergir
a nova família de Deus. Nela são estabelecidas as relações e padrões de
cuidado mútuo, aceitação da diversidade, inclusão de pessoas novas e,
em conjunto, canta-se e vive-se de acordo com a melodia do novo céu e da
nova terra: “Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo.
Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com
alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de
todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo
salvos” (At 2.46-47). A igreja precisa experimentar a contínua vocação
de ser expressão da família de Deus.
1. A figura
de José desaparece dos Evangelhos depois do episódio no templo, quando
Jesus tinha 12 anos (Lc 2.41-51). Por isso, uma interpretação bastante
comum é a de que José, sendo bem mais velho que Maria, teria morrido
cedo.
• Valdir Steuernagel é
teólogo sênior da Visão Mundial Internacional. Pastor luterano, é um dos
coordenadores da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e um dos
diretores da Aliança Evangélica Mundial e do Movimento de Lausanne.
Nenhum comentário:
Postar um comentário