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Paul Freston
Mateus 6.9 -- Pai nosso, que estás nos céus.
Gregório
começa ressaltando o contraste entre o modo de Deus se revelar nos dois
Testamentos. O cristianismo é a religião do “acesso democrático a
Deus”. “Quando Cristo nos traz a graça divina, ele não nos leva ao monte
Sinai coberto de escuridão, nem mete medo em nós pelo barulho insensato
de trombetas. Tampouco ele deixa a multidão para trás no pé da
montanha.” Os fenômenos aterrorizantes e o distanciamento criado por
intermediários não caracterizam a fé cristã. Em Cristo, todos são
chamados a testemunhar o poder divino. Mais do que isso, somos
convidados a participar desse poder, assumindo “parentesco com a
natureza divina”.
Isto está implícito na primeira
frase da oração que Jesus nos ensina. Com essas palavras, afirma
Gregório, somos convidados a deixar a terra para trás, repousar a nossa
mente em Deus e abordá-lo pelo nome mais íntimo possível: Pai! Porém, há
um problema: estamos tão acostumados com a prática cristã de se referir
a Deus dessa maneira, que dificilmente percebemos o que está em jogo.
Gregório, então, nos lembra da grandiosidade dessa oração. Para ele, “um
ser humano tentando entender Deus não ousaria chamar Deus pelo nome de
Pai, pois não vê nele mesmo as coisas que vê em Deus”. Deus é bom; como
pode ser Pai de alguém com vida impura? Deus não muda, é sempre
confiável; como pode ser Pai de seres humanos instáveis e inconfiáveis?
Como pode o Pai da vida ter filhos sujeitos a envelhecer e morrer? Ou
como pode um Deus que constantemente dá de si mesmo ser Pai de alguém
tão ensimesmado como eu? “O injusto e impuro não pode dizer ‘Pai’ ao que
é justo e puro, pois seria apenas orgulho e zombaria.”
Chamar
Deus de Pai é estabelecer para nós mesmos “a vida mais sublime como
nossa regra”. Temos que provar pela nossa vida que o parentesco é real.
Gregório não minimiza as implicações desse desafio: “Se fizeres tal
oração enquanto absorto em dinheiro, ou na busca da fama, ou escravizado
pelas paixões... que dirá ele? ‘Não reconheço em ti a imagem da minha
natureza’”. O Doador generoso está distante da pessoa cobiçosa; o
Misercordioso, da pessoa cruel.
A oração do
Pai-Nosso começa a parecer zombaria da parte de Jesus, tamanha é a
incongruência entre o Pai e os supostos filhos. Entretanto, graças a
Deus, há um sentido mais profundo. De acordo com Gregório, as palavras
“Pai nosso que estás nos céus” nos lembram “da pátria da qual caímos e
da dignidade que perdemos”. A alusão nesta frase é à parábola do filho
pródigo. A virada na parábola é quando o filho cai em si e se arrepende:
“Pai, pequei contra os céus e diante de Ti”. Esta confissão lhe dá
acesso ao pai. Gregório, como muitos pais da igreja, gosta de relacionar
os símbolos da parábola com a inversão da história da entrada do pecado
no Éden. Assim, o manto colocado pelo pai no filho arrependido é o
manto de glória perdido no jardim; o anel significa a recuperação da
imagem de Deus; e as sandálias são para proteger-nos da mordida da
serpente. Deste modo, para Gregório, a primeira frase da oração do
Pai-Nosso nos faz “lembrar da nossa pátria”, da terra do nosso Pai.
Contudo, como acrescenta, “a distância entre o divino e o humano não é
geográfica; antes, está na escolha de cada pessoa”.
Permanece,
porém, o desafio de “nos tornar igual ao nosso Pai por meio de uma vida
digna”. Gregório nos desafia ainda mais ao dizer: “Mas a pessoa
caracterizada por inveja, ódio, maledicência, orgulho, avareza, luxúria e
ambição louca... que tipo de pai a ouvirá? Não o celeste, mas o
infernal. Enquanto a pessoa má persiste na sua maldade, sua oração é uma
invocação ao diabo!”.
Mateus 5.9 -- Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Uma
característica em especial distingue os filhos de Deus: a de ser
“pacificadores”. Pensemos nos líderes eclesiásticos, nas pessoas que nos
são propostas como exemplos cristãos, e perguntemo-nos quais deles
demonstram essa característica.
Gregório fica maravilhado
ao refletir sobre as implicações da bem-aventurança: “Que dom incrível!
O homem transcende a sua própria natureza, e de homem se transforma em
deus, pois possuirá a dignidade do Pai”. Quem são, então, os filhos de
Deus? “São os que imitam o amor divino pelos seres humanos. Esta obra
ele ordena para você: expulsar o ódio e abolir a guerra, exterminar a
inveja e banir o conflito, tirar a hipocrisia e extinguir o
ressentimento no seu coração”, introduzindo em seu lugar os frutos do
Espírito.
Por que Deus valoriza tanto o papel de
pacificador? Porque “de tudo que os homens desejam, nada é melhor do que
a paz. Pois todas as coisas aprazíveis da vida precisam da paz para
serem desfrutadas. Bens, saúde, família, casa, amigos... que valem todos
eles, se a guerra abrevia o seu proveito? A paz, então, adoça tudo que é
valorizado na vida. Quem tem bom senso valoriza a paz acima de todas as
coisas”.
Por que é tão difícil ser pacificador? “Um
pacificador dá paz a outra pessoa; mas ninguém pode dar o que ele
próprio não possui. A paz nada mais é do que uma disposição amorosa para
com o próximo. É oposta igualmente ao ódio, à ira, à inveja, ao
ressentimento, à hipocrisia e à guerra.”
O não
pacificador prejudica os outros e faz mal a si mesmo. “Pensemos em todas
as devastações produzidas na alma pelas paixões ligadas ao ódio. Os
sintomas do demônio e os sintomas da ira são iguais [...]; e os sintomas
de alguém consumido pela inveja são iguais aos sintomas da morte.”
A
missão cristã é resumida na conclusão de Gregório: “Deus deseja que a
graça da paz abunde na tua vida, para que a tua vida cure as doenças dos
outros”.
Portanto, aquele que chama Deus de Pai cai em
si e reconhece que está distante de casa, da terra do Pai, que é a
origem e a finalidade da sua existência. A partir de então, vive na
tensão entre, de um lado, os braços abertos e tratamento generoso do Pai
e, de outro, o desafio permanente de manifestar os traços familiares.
Um traço que resume boa parte da tensão é o de “pacificador”. Somente
uma mensagem cristã que se caracteriza por criar pacificadores com uma
“disposição amorosa para com o próximo”, porque primeiro cura as
“devastações da alma” no interior da própria pessoa, merece vingar.
• Paul Freston,
inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de
pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e
professor catedrático na Balsillie School of International Affairs e na
Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá. É autor de,
entre outros, Nem Monge, Nem Executivo.
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