Depois
de fazer o curso de engenharia elétrica na Michigan State University
(1965–1969) e uma pós-graduação em teologia na Trinity Evangelical
Divinity School, em Illinois, Doug Van Bronkhorst dedicou-se
inteiramente ao ministério cristão. Foi pastor titular da Igreja
Presbiteriana de Walnut Creek, próxima a São Francisco, Califórnia, e,
mais recentemente, da Primeira Igreja Reformada de Grandville, Michigan.
Por “ter missões no seu DNA” (o avô foi missionário no Japão) e por
influência de um pastor com o qual havia trabalhado na área de educação
cristã, Doug começou a dedicar-se a missões. Hoje ele é diretor
executivo da Interserve (uma missão fundada na Índia em 1852) nos
Estados Unidos. Nesse ministério, Doug tem dado assistência a muitos
casais de missionários espalhados em vários países (Tailândia,
Bangladesh, Nepal e Tibete, por exemplo). Ele e sua esposa, Kathy,
visitaram o Brasil pela primeira vez em outubro de 2011. Foi ele quem
pregou na comemoração do 28° aniversário do Centro Evangélico de
Missões, em Viçosa, MG. Segundo ele, os americanos continuam
comprometidos com missões transculturais. Confessa que no ano passado as
doações para missões e outras causas diminuíram, mas acredita que
“quando a economia melhorar, isso vai melhorar”.
Mesmo
tendo nascido em um lar evangélico e participado de Escola Dominical na
infância e na adolescência, o senhor só assumiu o compromisso com o
evangelho na universidade. O ambiente universitário é propício a uma
decisão por Cristo?
Qualquer universidade
oferece tipos diferentes de “ambientes” sociais e intelectuais, alguns
saudáveis e que levam ao crescimento pessoal, e outros que levam
justamente ao caminho contrário. Na melhor das hipóteses, “a
universidade incentiva os jovens, em um estágio muito influenciável de
suas vidas, a buscar respostas para as questões mais importantes, como a
existência de Deus” -- e é por isso que o ministério com jovens
universitários é sempre importante.
Entre o missionário tradicional (de tempo integral) e o missionário biocupacional, qual deles seria mais necessário hoje?
Para
mim, não existe “missionário de meio período”. Todos os cristãos são
chamados para um ministério de tempo integral, a fim de usarem seus dons
a cada dia para a glória de Deus. O mundo precisa desesperadamente
deles em todas as esferas da vida, em todas as carreiras, em famílias
que entendem e seguem esse princípio. Alguns cristãos podem dedicar a
maior parte do tempo pregando ou liderando uma igreja; portanto,
pastores e evangelistas são bem-vindos, mas eles não são a chave para
que se cumpra a Grande Comissão de Cristo. O que realmente importa para
impregnar a cultura com o evangelho é afirmar e mobilizar os membros do
Corpo de Cristo, encorajando-os a compartilhar sua fé e viver para
Cristo onde quer que trabalhem e vivam, e em cada relacionamento.
Em novembro de 2011 você e Kathy se tornaram avós. Alguma coisa mudou na vida de vocês?
Estamos
começando a descobrir o que estas mudanças são e o que representarão
daqui para frente; mas já sabemos que este é um relacionamento especial,
com grande alegria e muitas responsabilidades. Estamos felizes por
nosso filho e nossa nora, por receberem este presente de amor em suas
vidas, que os ensina a confiar em Deus e um no outro para cuidar da June
Elizabeth, que, aliás, é a garotinha mais linda do mundo!
Qual
a sua percepção da crise econômica e como ela afeta o movimento de
missão integral (tanto na ajuda social como na missão transcultural)?
Acho
que a crise tem prejudicado todo tipo de missão. É preciso dinheiro
para se alcançar as pessoas, cuidar dos pobres, ultrapassar as barreiras
linguísticas e culturais pelo evangelho.
Os Estados Unidos realmente “pararam” de enviar missionários para países de risco devido à situação política?
Não.
Os cristãos norte-americanos ainda se dispõem a ir para os lugares mais
difíceis da terra, como o Afeganistão, e a igreja ainda os envia. Há
pessoas que defendem as missões locais, outras, as missões feitas por
nativos nas suas regiões, e há ainda outras que se concentram em
alcançar imigrantes em regiões difíceis fora de seu país de origem, mas
estas são apenas parte da grande e diversificada igreja dos Estados
Unidos, e nem de longe são a maioria.
Em
agosto de 2010, entre os dez estrangeiros assassinados no Afeganistão,
estavam dois profissionais americanos da Interserve, um médico
oftalmologista e um estagiário de 24 anos. Por que eles foram mortos?
Eles
foram mortos por pessoas que lutavam contra o atual governo afegão e as
tropas estrangeiras. Esses militantes muçulmanos se encontraram com os
norte-americanos por acaso e os mataram sem se importar em saber quem
eram aqueles estrangeiros e por que estavam no país. Os afegãos
acreditam que matar estrangeiros (os quais eles sempre presumem que são
cristãos) é bom para a causa deles. Muitos deles condenaram os
assassinatos porque reconheciam que Tom Little e seus companheiros eram
profissionais da saúde. Logo, a questão é política e religiosa; mas,
para os muçulmanos, esses assuntos estão sempre interligados.
Como os missionários americanos vivenciam a questão do sofrimento e perseguição no campo? Como reagem?
Na
época em que Tom e outros foram assassinados, havia dez pessoas “na
linha de frente” se preparando para ir para o Afeganistão conosco. Desde
os assassinatos, sete se mudaram para lá e começaram o trabalho, e os
outros três estão levantando apoio para fazê-lo. Assim, um tipo de
reação tem sido fé renovada e coragem admiráveis. Ao mesmo tempo, o
sofrimento e a perseguição são dolorosos. Alguns que estavam no
Afeganistão voltaram para os Estados Unidos e podem ou não retornar ao
exterior. Eles reagiram buscando preservar a saúde mental, emocional e
física deles e de suas famílias. Ainda é cedo para dizer quais serão os
efeitos a longo prazo, mas tenho confiança de que os cristãos
norte-americanos vão continuar servindo em lugares difíceis.
Os
Estados Unidos são conhecidos por sua generosidade histórica em
missões. Esta generosidade continua na crise? Como canalizar esta
qualidade sem “prejudicar” o desenvolvimento autóctone?
Sim,
ainda há generosidade, mas existem problemas. Muitos estão desanimados
por causa da crise, alguns estão deprimidos. Doações para todas as
causas (e não apenas para os cristãos) estiveram também em baixa no ano
passado. Quando a economia melhorar, isso vai voltar. Espero que os
norte-americanos parem de dar esmolas às pessoas. Mesmo com boas
intenções, a longo prazo, isso faz mais mal do que bem. A Interserve
trabalha para as pessoas se tornarem autossuficientes, e não
dependentes, e também para ser um modelo de trabalho em uma cultura
diferente, e não apenas estar na folha de pagamentos de uma igreja nos
Estados Unidos. Devido à pobreza de muitos dos lugares onde trabalham,
os parceiros da Interserve precisam receber ajuda dos Estados Unidos,
mas, ainda assim, possuem um emprego legal e trabalho no país de
serviço.
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