Alderi Souza de Matos
Dentro
de poucos anos será comemorado o 5º centenário da Reforma Protestante.
Isso significa que até 2017 muito irá se falar, escrever e debater sobre
o significado e as implicações desse importante movimento do século 16,
do qual muitas igrejas evangélicas se consideram herdeiras. Como se
sabe, os diferentes reformadores abraçaram um conjunto de convicções e
princípios comuns. Embora fundamentais, esses princípios não impediram
que o movimento protestante se fracionasse em diversas correntes. No
século 16, esses grupos foram quatro -- luteranos, reformados,
anabatistas e anglicanos. Nos séculos seguintes, surgiram muitos outros,
todos os quais, de alguma forma, desenvolveram ênfases que já estavam
presentes nos quatro movimentos iniciais. Assim, os ramos pioneiros da
Reforma representaram não somente diferentes confissões religiosas, mas
também diferentes maneiras de entender a igreja e a vida cristã.
Tradição
Os
reformadores se defrontaram com um dilema: eles queriam romper com
certos elementos dogmáticos e comportamentais da igreja majoritária, mas
ao mesmo tempo desejavam demonstrar um senso de continuidade com a
longa história cristã anterior a eles. Em outras palavras, eles
questionaram alguns aspectos do passado cristão, mas se esforçaram por
manter outros. Isso aconteceu em diferentes graus nos movimentos
iniciais da Reforma. Dois desses grupos foram especialmente escrupulosos
no sentido de preservar tudo o que fosse possível da tradição cristã
anterior: luteranos e anglicanos. Isso fica evidente em diversas áreas
da vida da igreja, como o entendimento do ministério e do culto cristão.
Apesar
de sua crítica contundente do catolicismo medieval, Lutero e seus
seguidores preservaram o episcopado, um entendimento semicatólico da
Ceia do Senhor, um forte destaque ao calendário eclesiástico e uma
liturgia elaborada. Os anglicanos foram ainda mais enfáticos nesse
esforço, dando imenso valor à sucessão apostólica, a hierarquia e a um
culto aparatoso, fortemente marcado pelo ritual. Para um observador
desavisado, uma cerimônia anglicana se parece bastante com sua
equivalente católico-romana. Não obstante a influência inicial da
tradição reformada ou calvinista, o anglicanismo abraçou consciente e
intencionalmente uma síntese católico-protestante, apesar da presença de
uma ala nitidamente evangélica nessa igreja (“Low Church”). Luteranos e
anglicanos também procuraram manter o ideal da cristandade, ou seja,
uma igreja única e hegemônica fortemente aliada ao Estado.
Experiência
Outro
grupo inicial da Reforma Protestante tomou um rumo diametralmente
oposto ao das igrejas retromencionadas -- os anabatistas, também
conhecidos como “irmãos suíços”. Para esse segmento, o mais importante
não eram os 1.500 anos de história e tradição anteriores, mas as origens
mesmas do cristianismo, isto é, o Novo Testamento. Seu grande ideal foi
voltar a viver como os cristãos da igreja primitiva. Com isso, seu
movimento se caracterizou pela rejeição da pesada herança dogmática,
litúrgica e institucional do catolicismo e do protestantismo
magisterial. Para a mentalidade anabatista, o mais importante era o
elemento experimental da fé cristã: o relacionamento com Deus, a
necessidade de conversão, a separação do mundo e o exercício da fé.
Esses
traços deram grande vitalidade espiritual aos “irmãos” e os capacitaram
a enfrentar corajosamente as horríveis perseguições de que foram objeto
em diversas regiões da Europa. Ao mesmo tempo, seu experiencialismo foi
uma fonte de dificuldades que foram lamentadas pelos reformadores
principais. Entre estas podem ser mencionadas o apelo a revelações
diretas do Espírito Santo, o perigo de lideranças personalistas e o
fanatismo gerado por convicções milenaristas. Com o tempo, esse grupo
adquiriu maior sobriedade e equilíbrio, sob a direção de homens como o
holandês Menno Simons, o originador dos menonitas.
Escritura
Uma
terceira abordagem entre os grupos protestantes foi adotada pelos
reformados ou calvinistas, que privilegiaram uma posição mediana entre o
tradicionalismo dos luteranos e anglicanos e o experiencialismo dos
anabatistas, ainda que abraçando certas preocupações desses movimentos.
Historicamente, os reformados têm sido conhecidos por sua ênfase na
Palavra de Deus, a revelação bíblica, como o fundamento primordial da
igreja e da fé cristã. Eles entendem que nem a tradição nem a
experiência devem ter a última palavra na vida e na espiritualidade
cristã, mas devem estar sempre submissas à revelação objetiva de Deus
nas Escrituras.
Como foi dito, o movimento
reformado abraçou uma posição intermediária entre as outras duas
alternativas, porém não as rejeitou por completo. À semelhança das
tradições luterana e anglicana, o calvinismo tem um imenso respeito pela
história cristã ao longo dos séculos, por muita coisa que os cristãos
fizeram e falaram de positivo nos 1.500 anos anteriores à Reforma. São
exemplos disso a sua apreciação pelos pais da igreja e pelas grandes
formulações dos credos históricos, bem como pela riqueza e profundidade
espiritual das liturgias antigas. De igual modo, a tradição reformada
sempre valorizou os aspectos existenciais e práticos da vida cristã,
como a vida devocional, a oração, a santificação e a obediência à lei de
Deus. Tudo isso, no entanto, fica sempre subordinado à Palavra, que
deve ter prioridade em tudo o que diz respeito à fé, ao culto e à vida.
Conclusão
Todas
as igrejas protestantes que surgiram a partir do século 17 são
herdeiras desses paradigmas do século 16, mesclando-os em diferentes
proporções. No mundo contemporâneo, temos confissões que se destacam por
sua reverência pelo passado, seu senso de continuidade histórica, sua
valorização de formas institucionais e litúrgicas consagradas pela
tradição. Outros grupos se caracterizam primariamente por sua
espontaneidade, informalidade e intensidade espiritual, a partir de uma
experiência direta do divino. Finalmente, há aqueles que, sem desprezar a
tradição e a experiência, entendem que sua identidade deve ser moldada
acima de tudo pelo compromisso com o que Deus revelou em sua Palavra -- o
“sola Scriptura” dos reformadores do século 16. Que as igrejas filhas
da Reforma reafirmem esse compromisso solene, para que possam ser fiéis
ao evangelho de Cristo nos momentosos dias atuais.
• Alderi Souza de Matos é
doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador
oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã
na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil. asdm@mackenzie.com.br
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