Ageu Heringer Lisboa
A
psicanálise e todo romancista sabem e trabalham com o pressuposto de
que o mal está entranhado no ser humano e que cumpre a todos a tarefa de
domá-lo. Trata-se de um caldeirão energético de que o processo
civilizatório busca dar conta, subjugando a besta-fera que nos espreita
de dentro.
No que diz respeito às culpas do
dia a dia, existem as reais e as imaginárias, as fabricadas e a
neurótica. Contudo, há também esperança para quem sofre de culpabilidade
patológica.
Algumas pessoas, em uma conversação
rotineira, pedem desculpas por qualquer motivo, seja por tossir ou por
escorregar da cadeira. Este cacoete linguístico indica um cuidado
constante para não errar e uma tentativa de acertar ou agradar sempre.
Quando me deparo com pessoas assim, que pedem “des”-culpas a todo tempo,
digo-lhes que não têm “dez”, nem “nove”, nem “uma” culpa; decifrado o
jogo linguístico, elas costumam sorrir e se desarmam. Com alguma ajuda
poderão se sentir mais livres para desfrutar da existência sem medo, que
é o que Deus deseja para todos.
Por um lado, há
pessoas dominadas pela escrupulosidade e obsessividade constrangedoras e
limitantes. Não querem incomodar, nem errar, e filtram tudo. Sentem-se
erradas sempre e pedem desculpas até por existir. São inseguras,
possuídas por um senso moral rígido e alimentadas por noções inadequadas
a respeito de si mesmas. Descobre-se nelas, com frequência, um
histórico de fortes cobranças e moralismo nas relações familiares vindo
de pais e mães castradores, pregações acusadoras ou outras ameaças.
Essas pessoas aprenderam a desconfiar de si mesmas, a sofrer e a não
desfrutar da vida. Incorporaram noções exageradas de culpa e impureza.
Não sabem como descansar na graça de Deus, que está disposto a
acolhê-las, pois carregam um enorme fardo de culpa -- neurótica,
aprendida, que complica a situação. Um gracioso processo de
aconselhamento ou psicoterapia pode quebrar as distorções, promover uma
reordenação cognitiva (“Conhecereis a verdade e a verdade vos
libertará”) e libertá-las emocional e espiritualmente.
Por
outro lado, há pessoas que dificilmente admitem estar erradas. Sofrem
quando têm que pedir desculpas. Pedir perdão é ainda mais difícil; só
mesmo quando pressionadas admitem a culpa, contorcendo-se e tentando se
desculpar. Ser “durão” é algo encorajado em certas culturas. Na
hedonista cultura brasileira, por exemplo, celebra-se uma glamourização
do transgressivo, estimula-se a esperteza e a busca de vantagens em
detrimento do outro. “Não existe pecado do lado de baixo do Equador”, é o
que se canta. Os excessos deste processo cultural podem ser percebidos
tanto nos territórios dominados pelos traficantes e policiais, como na
corrupção política que dirige o país. Pena que estes poderosos não se
sentem culpados! Como fazem falta pessoas como João Batista para
enfrentar tamanha insensibilidade ética.
Um ser
humano bem constituído é capaz de sentir e respeitar limites próprios e
do outro. Só é possível o laço social quando se tem a lei sobre todos.
No plano individual, carregamos ou somos ativados pelo “supereu”, ou
superego, nosso dinamismo ético-espiritual, a consciência trabalhada
pela lei e adquirida no processo de educação e formação de caráter, o
que nos faz humanos maduros, responsáveis, capazes de sofrimento e
fraternidade. Quando ele falha, temos difíceis processos de reeducação e
socialização pela frente.
O caso extremo da
psicopatologia é a psicopatia. O psicopata é o narcisista frio, alguém
incapaz de sentir culpa ou remorso. O contrário, então, a capacidade de
sofrer com a culpa, é sinal de vitalidade do equipamento psíquico, da
existência de sensor moral e vida espiritual, de humanidade preservada.
Culpa e religião cristã
Há
uma longa história de equívocos nas comunidades cristãs, que desde os
primeiros séculos possuíam visões ascéticas extremas, com uma série de
interdições controlando a vida das pessoas. O corpo e a sexualidade
foram os grandes vilões. Se rabis e sacerdotes judeus criaram mais de
600 artigos complementares ao Decálogo (e vemos como Jesus desmontou
esta falsa espiritualidade que complicava a vida das pessoas), no meio
cristão passou-se por processo semelhante em nome de doutrinas e
interesses de sistemas religiosos. Alguns líderes são criadores e
vítimas de imagens doentias de Deus, de um deus pequeno, complexado,
vingativo, narcisista, semelhante a um guarda rodoviário sem
misericórdia, que fica à espreita da menor falta para flagrar o faltoso e
puni-lo. Assim se faz um deus diabólico, doentio.
Este
tipo de mensagem sobre Deus causa muito sofrimento, gerando nas pessoas
sentimentos persecutórios e sensação de impotência e ausência de
perdão. Pinta-se um deus instável, arbitrário, não confiável, como as
divindades pagãs, que precisam ser aplacadas com sacrifícios. Assim, de
forma maldosa, sádica e até criminosa temos uma indústria religiosa do
medo, que explora a fraqueza de pessoas incultas e incautas. Na
periferia de São Paulo, por exemplo, veem-se cristãos paupérrimos e
angustiados devido a cobranças de dízimos. Nas emissoras de rádio e
televisão cultiva-se o medo: a pessoa tida como indigna de Deus pode
perder a salvação, ser tratada como herege e excluída da comunidade,
dependendo do julgamento de terceiros. Isso aprofunda as fissuras
psíquicas pré-existentes e adoece a relação com Deus.
Tanto
os sentimentos quanto as habilidades funcionais são ensinados pelos
pais e demais instâncias formadoras. Aos conteúdos que se quer inculcar
na criança e no adolescente agrega-se a carga emocional que acompanha o
processo de socialização e educação. Este é um fenômeno universal e
aplica-se a todos os âmbitos da vida, notadamente em questões de
orientação religiosa e de ordem sexual. Está presente na família, na
igreja, na sinagoga, na mesquita ou no terreiro de candomblé e é
elemento decisivo para a saúde mental das futuras gerações. Se a
instrução vem pela via amorosa, afirmativa e paciente, encontramos
pessoas emocionalmente saudáveis, com raciocínio mais tranquilo. Pais e
mães que funcionam como “nutridores emocionais” espelham uma imagem de
Deus amorosa, forte, justa, encorajadora. No entanto, se Deus é expresso
com rigidez, criticismo, suspeitas e castigos, encontramos pessoas
inseguras, sofridas e com dificuldade de crer na graça incondicional.
Assim, a construção da identidade segura, amorosa, ética tem a ver com
os padrões desenvolvidos.
Podemos ser controlados
por culpas neuróticas, falsas e culturais. Algumas delas vêm por meio da
imposição legalista da cobrança de dízimos nas igrejas, do não
cumprimento do tempo de jejum, de não ter orado ou lido a Bíblia
suficientemente, de não ter participado de alguma campanha. Jesus lidava
com as pessoas de modo diferente. Aquele que estava oprimido encontrava
acolhida, graça, proteção e respeito à sua individualidade.
Há
a autêntica culpa, sabida ou oculta, que é a transgressão objetiva e
real do mandamento do amor. Neste caso, o Espírito Santo incomoda,
esclarece, induz ao arrependimento e perdoa (Sl 19.12-13). Somos
perdoados e libertos quando submetemos nossa consciência ao Espírito de
Deus e clamamos por perdão e graça àquele que sonda as mentes e os
corações. Pode-se orar assim: “Tu, Senhor, que sonda meu interior e sabe
o que há em mim, torna-me consciente de minhas faltas e guia-me pelo
caminho da retidão”.
Para quem, mesmo sendo
dedicado à oração, ainda se sente ameaçado pelas lembranças de pecados,
um conselho: busque ajuda de um bom profissional ou de pessoas alegres e
maduras na fé, que o ajudarão a desativar os mecanismos de sabotagem
adquiridos. Sua mente sofre devido à má digestão de experiências
emocionais familiares, ao desconhecimento das boas novas relatadas nas
Escrituras, ao estresse e à desordem bioquímica. Um psicoterapeuta ou
psiquiatra poderá diagnosticar o problema, que tem reparação
medicamentosa. É o caso de muitos que sofrem por sentir que pecaram
contra o Espírito Santo.
Felizmente, para qualquer
pessoa -- mesmo as mais afetadas por má educação, violência psíquica,
“bullying” espiritual -- é possível uma cura substancial dos transtornos
e a retomada de uma vida digna. Pode-se ouvir, no íntimo, a voz terna
do Pai, que declara um amor incondicional, como no batismo de Jesus: “Tu
és o meu filho e me dás muita alegria!” (Mc 1.11). Por fim, podemos
entrar no paraíso, desde agora, ao contemplarmos Jesus na cruz, pois ele
mesmo nos sussurra e nos garante isto (Lc 23.42-43). Esta é uma
realidade para o presente, instaurada pelo Jesus que diz: “Vinde a mim
os que estão cansados e oprimidos e tenham descanso”; “Tudo está
consumado”. Desde a cruz, estamos livres de toda maldição e poder (Is
53). “Vinde, benditos do meu Pai!”
Nota
1. Mircea Eliade é autor clássico no tema.
Ageu Heringer Lisboa,
psicólogo clínico, é mestre em ciências da religião e membro fundador
do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos. ageuhl@gmail.com
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