Colunas — Missão integral
Setembro-Outubro
A missão de Jesus e a nossa missão
De todas as descrições de Jesus Cristo no Novo Testamento, nenhuma comunica com tanta força a natureza de sua missão como a descrição dele como “servo”, ou “escravo” (“doulos”). Em Marcos 10.45, ele disse sobre si mesmo: “o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos”. Tal descrição combina duas figuras do Antigo Testamento: o glorioso Filho do homem de Daniel 7, que vem entre as nuvens do céu para estabelecer seu domínio eterno sobre todos os povos, nações e línguas, e o Servo sofredor do cântico de Isaías 53, que oferece sua vida em expiação para justificar a muitos. Este admirável paradoxo é uma maneira de afirmar que Jesus veio para estabelecer seu reinado universal tendo como base o seu próprio sacrifício pelos pecadores, ou seja, como “o Cristo crucificado” (1Co 1.23; 2.2).
É claro que o sacrifício de Cristo -- um sacrifício de eficácia redentora -- nunca poderá ser repetido. Como afirma o autor da carta aos Hebreus, em virtude da vontade de Deus, “temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” (10.10). No entanto, o Novo Testamento provê uma base sólida para afirmar que nós, os seguidores de Cristo, somos chamados a reproduzir em nossa própria experiência o mesmo tipo de entrega, inspirada pelo amor, que o levou à cruz. Nas palavras do apóstolo João: “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1Jo 3.16).
Para o apóstolo Paulo é clara a relação entre a entrega de Jesus Cristo na cruz e sua própria experiência como missionário. Nessa direção aponta um texto cuja interpretação sempre motivou muita reflexão entre os estudiosos: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja” (Cl 1.24). Não se trata de que Paulo considere que os sofrimentos de Cristo tenham sido insuficientes para cumprir cabalmente seu propósito redentor. Trata-se, na verdade, de que o apóstolo considera que seu próprio sofrimento torna possível que a igreja chegue a ser o que Deus se propôs a fazer dela e ser aquilo pelo que Jesus Cristo deu sua vida. Se a igreja quer ser fiel ao seu chamado de prolongar a missão de Jesus Cristo ao longo da história, toda ela e, mais ainda, seus líderes, não podem esquivar-se do sacrifício que implica seguir o caminho de Jesus como o Servo sofredor do Senhor.
Traduzido por Wagner Guimarães
• C. René Padilla é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de O Que É Missão Integral?.
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